sexta-feira, junho 18, 2010

quinta-feira, junho 17, 2010

América Latina

Tocaste-me na ferida para variar. Sabes bem que não aguento com essa música. Porque me faz lembrar as raízes adormecidas. A América latina fica mais perto. E o pior disto tudo foi apenas saber que metade do meu sangue a lá pertence. Fora isso não conheço mais nada. Não tenho essa cultura, nunca vi o meu pai, nunca provei empanadas, nunca ouvi a música. E no entanto tu tocaste-me na ferida. Porque me dói a América Latina, quase como se fosse minha. Não o sendo racionalmente. Mesmo se nunca tivesse sabido o meu verdadeiro nome ser Reyes, para sempre choraria os golpes de estado, os embargos, a guerra fria, os ditadores e as marchas esquecidas. Porque é este sangue que queima os músculos trazendo de volta as guitarras, para trás e para frente, sem me aperceber que apenas é sexo latino. Porque me ardem as lágrimas, e mesmo assim choro a vulgaridade. E depois de chorar bebo. E depois de beber não me resta nada para além da nostalgia. Como a qualquer escritor latino-americano. E faço de propósito estas pontuações, lembrando que poderia ter como língua materna o castelhano e não o português. Sem me aperceber que afinal de contas é quase a mesma coisa. E furiosa pego o teclado fingindo-o de adamastor do ADN. Pois custa tanto o cabo das tormentas como atravessar o deserto de Atacama. Embora raramente tenha cruzado o metro de Lisboa para além de estação de Odivelas. E o problema é aperceber-me que de facto essa é a última estação. Pois o limite é uma coisa variável ao tamanho do sonho. E eu sonho nunca chegar. Pois a verdade é que sonho sem destino. Procuro lugares em pessoas e pessoas sem casa. Como eu, que não compreendo os porquês de tudo me amordaçar, arriscando preferir morrer em vez de lutar. E tudo porque simplesmente nunca me sinto em lugar algum. E passo todos os dias pela provação de que talvez o encontre nessa. Nessa América Latina.

segunda-feira, junho 14, 2010

Frida Kahlo - Lila Downs Llorona

The only people for me are the mad ones

The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to
live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same
time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn,
burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders
across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop
and everybody goes "Awww!”

Jack Kerouac



I

Ela mantém-se de pé na pequena pista. Uma pequena luz vermelha ilumina a perna, incidindo especialmente sobre a liga preta. Serve-lhe bem esse pequeno adereço de amor. A coxa é demasiado bem torneada para que servisse melhor a qualquer outra mulher. À sua frente está um homem de quarenta anos, mas pelo aspecto não aparenta ter mais de trinta. Sempre o conheci assim, novo demais para todas as ocasiões. Sempre pensei que nunca tivesse idade para entrar numa casa de strip. A ela nunca a julguei ver despir-se para desconhecidos. Sempre tão bem fardada e ciente do amor. Lembro-os distantes, tal como estão agora. A única coisa que os poderia unir seria umas parcas notas de cem euros, jogadas à bruta sobre o corpo dela, e simplesmente porque foi um fetish de que ele sempre me falou. As noites ao seu lado costumavam ser longas a esse ponto. Eu contava-lhe que estava apaixonada por um estrangeiro e ele dizia-me que gostava de se apaixonar por uma puta. Mas a verdade é que nem isso os ligava. Ela ainda era ciente do amor, a sua noção de intimidade é que mudara. Circunstâncias da vida, como eu costumava dizer-lhe nas despedidas.

Ela dá uma pequena volta no varão metálico, encostando a vagina que já arrefece contra aquele objecto. E nesse instante ele ousa desapertar o botão das calças e puxar a braguilha para baixo. Ela pára de rodopiar no varão. “Não estás à espera que o chupe…?”. Ele mantém-se em silêncio. “Ou o pões para dentro ou então a tua sessão privada acaba aqui, são as regras…”. O mais curioso nestas frases é que a ela conheço-a por Cátia e a ele por Mateus.

A cidade mantém-se imóvel, estática, congelando uma dançarina de strip e um homem que não tinha nada a perder. E dez quarteirões abaixo uma velha acomoda o soutien às mamas de silicone. Algo bárbaro que as senhoras faziam há cinquenta anos atrás. Hoje em dia a melhor forma de se aumentar os seios é através da aplicação de ar pelo poros da pele. A loucura era uma palavra que não pertencia no seu dicionário até chegar a velha. Pois tudo o que faz, consome, veste e diz é estranho e diferente. Nunca me ocorreu pensar que todos os velhos são naturalmente excêntricos e patéticos. A verdade é que o tempo não é nada relativo. E o que se faz hoje não se fará amanhã. A única diferença perante um verdadeiro louco, é a palavras solidão e descriminação serem mais recorrentes para classificar faixas etárias superiores. “Estou velha”, diz a mulher que sempre perseguiu a juventude. Pega na carteira, fecha a porta de casa à chave e apanha um táxi para as docas. Faz questão de jantar no melhor restaurante vegetariano da cidade, porque afinal de contas, nós somos aquilo que comemos.

Eu saio de casa já atrasada para ir jantar com a minha mãe. Do outro lado da linha a Cátia diz-me que se apaixonou por um cliente. Gostava de a poder ajudar, mas o quotidiano interrompe o afecto. Já se faz tarde para mim e o meu marido está de novo bêbado demais para ir jantar com a sogra. E por alguma razão, ao desligar o telemóvel, lembro-me que estou a mais de 1000 kilometros de distância de mim mesma. Nunca mais voltei a ver os seus olhos azuis, gastos de ver. E sem querer dou por mim sentada à mesa a ver a ementa do dia. É um conceito novo e arrojado de restaurante. Ouvi falar dele a minha adolescência inteira. O chef vem pessoalmente atender-nos e pelo canto do olho vejo a minha mãe tão velha a corar. “Nós comemos o que o chef recomenda” e ele responde, “sendo assim o vosso jantar será surpresa”. E mal ele se desloca para a cozinha a minha mãe sussurra, “oh deus, nunca pensei que o teu amigo fosse tão dotado, é uma pena ser gay!”. E à nossa volta todos os empregados de mesa servem os seus clientes, completamente nus da cintura para baixo.

Algures durante a refeição apareces tu sem aviso. É a minha velha mãe que te reconhece primeiro. “Olha ali o Tiago…”. E por baixo de uma barba enorme vejo uma boca a sorrir. Vens andrajoso como um maltrapilho. Sentas-te à mesa sem pedires, a vida fez-te corajosamente mal-educado. E atrás de uma gargalhada escondes-me num abraço apertado. Acendes um cigarro e eu digo em alto e bom som, “nós sempre fomos mais amigos que amantes”. E tu simplesmente respondes, “com que então és uma daquelas pessoas que me pagam o salário”. “ Desde o primeiro livro!”. E tu desatas a falar mal das editoras, dos escritores, de Apolo, de deus, dos empregados nus, das mulheres, dos vegetarianos em geral, dos velhos, dos políticos e até do passado. “Porquê o passado?”, pergunto-te eu. “Porque não confio na memória, ando a vê-lo demasiado bonito”. E todos sorrimos por teres dito a palavra “bonito”.

“Onde estás tu, Lígia?”, pergunta o silêncio. E antes de ouvir a resposta já estou de novo a beber um martini enquanto uma amiga de infância desliza como uma serpente pelo varão. A música que toca faz-me chorar. Alguém a mais sabe que estou aqui. Porque de repente começa a nevar, como nunca nevou em Lisboa. E as minhas mãos ficam gélidas tentando encontrar outras, vindas de um país onde nunca neva. “Quem és tu?”, “Onde estás tu?”. Toda a gente usa uma máscara para não ser reconhecida por estar num lugar como este. Hoje em dia está na moda a moralidade. Em que cave ou bar se esconde o acaso? E é ai que ouço uma voz masculina a perguntar pelo meu nome. Será o acaso uma pessoa de carne e osso? Quem se esconde atrás do acaso e me prega partidas? Qual dos mascarados será ele?
“Lígia estás bem? Já não te lembras de mim? Sou o Mateus…”. “Mateus… O que é feito de ti?”. E vejo-o a querer prender-se para sempre à mulher do varão. Os seus olhos ficam infantis, tal como o sorriso, sempre a abrir-se em câmara lenta, cada vez mais e mais. E ela dança para ele, esteve ali o tempo todo a dançar só para ele. “Consegues ouvir a música?” pergunto-lhe eu, “claro que consigo, Lígia, acreditas em coincidências?”. Não. “Eu também não”. Agarra numa grande folha de papel e começa a desenhar uma perna esticada contra o varão.

É ai que me dou conta que os mortos conseguem ser mais loucos que os velhos, mais loucos que a própria loucura. Por ser simplesmente insano passar às quatro da manhã música clássica num bar de strip. “Quem és tu?”, “Onde estou eu?”. E alguém me diz para ter calma e ser paciente. “Porquê António Fragoso?”. E da penumbra das luzes negras vejo o rosto da Judite. “Sempre te ouvi dizer que só ouvias músicos que já morreram, porquê tanta coisa agora?”. “Só podias ser tu Judite…”. E ela beija-me os lábios e diz-me que sentiu a minha falta. Fui-me embora porque queria viajar. “O problema é que acabaste por nunca ter viajado”. Sim, é verdade, não viajei com o inteiro sentido da palavra. “Já não és tu que falas, é o teu cão”. “Mas, eu nem sequer tenho um cão”. “Isso é o que tu pensas”, diz-me ela enquanto me acaricia os cabelos. Nunca nos tínhamos beijado nem tocado antes. “Também não queria esperar pela morte para o fazer”. “Fizeste bem, agora já levamos algo mais para o crematório” Porque são loucos os mortos, mas não a morte.

Saio do bar e eles perguntam-me se preciso de boleia. Não, vou a pé para casa. E mal o carro de perde no horizonte começa a chover. Ao fundo da rua vejo uma cabine telefónica. Perco-me nos olhos azuis outra vez para me ouvir do outro lado da linha a dizer “Quem és tu?”. “ Sou a Lígia, lembras-te?”. Sim, a rapariga que nunca soubeste dizer o nome por ser complicado na tua língua. “Onde estou?”. E ele ouve a resposta para me dizer que vai agora apanhar um avião para Lisboa. “Chego amanhã de manhã”. Desligo o telefone e caminho em direcção a uma cama onde alguém ressona demais por causa da bebedeira. Acendo a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira.

O meu marido barafusta, pede-me que o deixe dormir. “Amanhã de manhã já cá não estarei, vou viajar”. Ele levanta-se, e começa a fumar um dos cigarros que estão espalhados pelo chão. “É ele não é?”. Sim, é… Ele começa a rir-se. “Sabes, estou há mais de vinte anos à espera que tomes uma decisão, fico feliz por finalmente a teres tomado”. “Como é que sabes…?”. “Porque o consigo ler no teu olhar, desde que te conheci que carregas essa merda no olhar e agora puff, finalmente desapareceu!”. “E ficaste comigo mesmo assim?”. “Porque te Amo”.

Dou-me conta que o Amor é a maior das loucuras.

“Mas eu podia ter-te deixado a qualquer outro momento, podia ter fugido, podia ter-te enganado, traído, fazer da tua vida um inferno”. “Sim, e pode ter acontecido isso em algum momento outro, mas o que é certo é que tu há mais de vinte anos é que estás comigo mesmo assim…” Deitei-me ao lado dele a pensar que andei estes anos todos a formular as perguntas erradas. “Anda, não chores, não vale a pena…” diz-me ele enquanto me beija a testa. “Eu sei que amanhã de manhã já te foste embora, mas não te preocupes, vou cuidar da casa para quando voltares.” “Achas que volto?”. “Não sei, mas se vivi mais de vinte anos na tua indecisão sou capaz de viver mais outros vinte. Quem sabe mais…”.

Nessa noite eu e ele fizemos amor e adormecemos. Quando acordei dei-me conta que tinha partido para muito longe sem sair daquela cama. Por nunca saber ao certo quem sou ou onde estou. No entanto acontece chegar a casa e ouvir os sussurros de um velho irlandês a contar aos netos como um dia foi para Lisboa à procura de uma mulher que nunca encontrou. E os pequenos perguntam-lhe se ele não ficou triste. O velho sorri e responde com uma frase de um dos seus autores favoritos: “The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders”.