segunda-feira, abril 26, 2010

Até à Califórnia
Para o João e Ana Rita

Éramos os três no teu velho Mustang,
A conduzires do nosso velho bairro
Em direcção à Califórnia.
Ela estava sentada ao meu lado
Nos seus lábios rosa
Expressando a vontade
De dar uns quantos primeiros beijo
Em bocas virgens e almas tristes.
Tu, com as mãos atadas a um volante
Conduzindo uma guitarra solitária
Guiando-nos através dessa música
Em direcção ao paradeiro de San Francisco.
E eu a tentar sentir a aragem da liberdade
Sobre os meus pés desnudos,
Atravessados na janela de um
Chaço chamado vida.
Seguíamos viagem numa estrada já gasta
Em sonhos solúveis no ouro
De uma terra que nos parece distante.
Pelo caminho, atravessando quase 50 Estados
De pura indolência pelos sinais de trânsito,
Optando pelos atalhos mais distantes,
Cruzámo-nos com os Índios
E as suas plantas medicinais:
Pausas intermináveis
Acalentadas pela ideia
De que o nosso Destino é certo
E espera por nós…
Encontrámos outros peregrinos,
Alguns músicos em tourneés eternas
A quem dávamos boleia no auto-rádio.
E durante horas seguidas,
Atravessando o Arizona,
Ouviste um estranho passageiro
Que te sussurrou ao ouvido:
This is the end, my only friend, the end.
Eu lia um poeta que não gostava de viajar
E ela olhava abstractamente para o deserto
Recordando o australiano do Whisky Bar.
Um grito interminável surgiu do Grand Canyon;
Parámos junto do abismo e:
Tu vomitaste a solidão,
Enquanto eu fumava a solidão,
Enquanto ela beijava a solidão.

Anoiteceu.
Toca agora uma música no teu Mustang,
E os teus acordes cansados
Ecoam através do deserto silencioso.
Eu apaguei a beata com a sola da coragem,
Ela saboreou uma pastilha de redenção,
E tu vais ligar a ignição nos teus tons fortes.

De volta à Estrada.
Até à Califórnia.

sexta-feira, abril 02, 2010