quarta-feira, março 31, 2010

Porque está na moda alice no país das maravilhas





Alice (republicado)

Hoje passei por um coelho branco
E ele nem um relógio tinha.
A menina de cabelos loiros pegou-o pelos braços
Perguntou-lhe as horas do próximo comboio
E ele fixou-lhe o olhar esgazeado de um animal.
Acendeu um cigarro que os levasse para uma toca,
Um local iluminado por velas
No incenso constante de uma presumível
Partilha de nicotina.
Era um coelho e não um sapo,
Um coelho que nem as horas sabia.
Adormeceu então na periferia da linha de aviso,
Como um comprimido que vai separando
A linha dos carris e a plataforma dos vivos:
Aqueles que sabem os horários da CP.
E junto da cabeça sentiu os pontapés
Das gentes que vêm e vão,
Entrando e saindo
Da tua detestável wonderland
Comprimida num LCD.
Os outros, os invisíveis Xis e Ípsilons
Vão-se juntando a ela,
Como uma baralho de cartas
Espalhado no chão de Campanhã.
E eu, incrédula,
Vejo já uma rainha de copas
Trucidada de baixo de um vagão,
Perguntando-te ao ouvido:
"Quem foi que morreu desta vez, Alice?".
E a Alice,
Cheia de olhos prestes a chorarem
Agarra-me violentamente entre os parágrafos,
Todos eles demasiado pequenos
Para o tamanho da sua angústia,
Gritando-me:
"Enterra-me num jazigo mais largo".

Arranhamos uma parca transcendentalidade
Para o mercúrio moderno
Nos dizer que estamos erradas,
Que "o Amor já não é eterno",
Mas de propósito em cada carruagem
Sai um chapeleiro Louco:
A Alice já tem horas marcadas para hoje à noite
Com um corpo qualquer embriagado de chá.

Os vermes, os fungos,
Crescem velozmente
No ópio dos seus martinis e das minhas cervejas -
E ainda são só quatro da tarde.
E ela encosta-me como um gato
No colo das suas palavras
Para me aperceber que infelizmente
A minha cabeça continua presa ao corpo.
Oh Alice em delírio
Embebida nos semáforos e luzes nocturnas,
Serve-me mais um copo
Nos Maus Hábitos da pornografia e da bíblia.
Dá-me o mundo onde mataram as crianças
Para lhes darem um batom e saltos altos.
E de seguida vê-me a partir,
No silêncio da amargura,
Por saber que tenho corpo:
Mas não sei andar

Nem foder
Como se faz no canal 18.

domingo, março 21, 2010

O meu amigo está de baixa permanente,
Caiu a ponte
E os mortos ficaram por contar.
De baixo das trincheiras um soldado
Masturba a solidão enquanto
Trinca quatro fatias de esquecimento.
Tenho um amigo que morreu
Por causa da loucura,
A minha casa está prestes a ruir.
E o meu amigo vive lá.
O seu corpo dá voltas às paredes
Como se existissem verdades absolutas.
Ele ainda não escolheu
De que lado do limbo vai viver.
Calha às vezes encontrá-lo a beber
Esta mistela de whisky sujo
Diz-me sempre o mesmo:
As noticias diárias.
Vai acontecendo na cidade os estúpidos
Voltarem a correr a maratona
E eu fiquei do lado de fora,
Perdi as chaves dos sonhos.
O soldado volta
Em estado permanente de tusa,
Girando a pila e as armas
Á volta do caixão do meu amigo.
Digo-lhe que já me chega a catatónia,
Meto um Risperdal à boca
Limpando do estômago
Esperma e balas.
Mas a guerra estala
E o meu amigo continua morto.
De resto,
Só mudam as noticias.