sábado, fevereiro 20, 2010

Consomem-te as notas divagadas pelo espírito,
Incandesce aos poucos uma leve condensação
Em gotícula de paranóia
Bebidas amargamente pela minha morte.
Vai-te sabendo bem o meu cadáver,
A cheirar a decomposição do medo
Gostavas tu de comer as larvas
Espalhadas sobre o silêncio
Mestria corporal de imperfeições
Suscitadas ao mínimo desamor.
Vais sabendo tu do meu suicídio lento
Nessa tua ácida solução de alheamento
Apetecia-te foder-me
Mas hoje devolvo-te mil sorrisos
Trocas directas de ofensas;
Mal sabes que o orgulho é a maior ferida que te posso provocar.
Mas hoje sou mil fechaduras
E o meu corpo grita as saliências
Do tempo que ainda não passou.
Porque o amor é mais do que um jogo
Proferido em palavras sujas de desinteresse
Arranhando-me a maldade inerte
Na tua falsa sedução audaciosa.
Porque o que não sabes
É que sou um monstro bem maior que tu.
E a fealdade é-me mais natural
Que todas as mentiras que um homem consegue dizer.
Consome-me então no teu medo,
Jamais recearei parecer-me contigo.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Ela tem a melancolia instaurada no olhar,
Dizem-lhe as avós, praticamente desde o nascimento.
Gostava de se abrilhantar
Pousada perfidamente nos braços de alguém
Como se o mundo fosse um par de pernas
E a alma se deslocasse nas mãos.
E de todas as verdades que poderia almejar
Foi a única que guardou no ventre,
Lugar onde onde nada se retém,
Parindo o dia-a-dia em homens
Sôfregos de inusitadas estórias
Esquivas de quem se esqueceu
A linha que separa
Prática e teoria.

Grta-lhe o corpo
Como se vivesse alguém lá dentro
Restava-lhe saber o afinal de contas
Ao sofrer de psicose dos pontos finais.
Mas cura vive da doença
E a lucidez é uma remédio imprestável
Para tudo o que doa
Sem razão de doer.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

A cadeira, como aquela que Van Gogh pintou

A cadeira continua lá, imóvel e fria. A ela não lhe interessa a subjectividade própria dos homens. Nem lhe interessa quantos cus se sentam em cima dela. Obedece apenas a uma estrita lei da física. A massa apoiada não pode ultrapassar determinado peso. Sob pena de uma cadeira deixar de ser uma cadeira. Um dia vi um suicídio em massa de cadeiras. Devia ter apenas seis anos quando vi uma bancada de cinema cair por causa da tristeza da velhice. Foi assim, sem mais nem menos, caíram todas de uma só vez. Felizmente esse é um episódio que raramente se vê em tempo de vida. Geralmente as cadeiras não têm vontade própria, nem perante a injustiça. Como aquelas cadeiras em que se sentaram os judeus todos para serem fuzilados de uma só vez. As cadeiras são muito egoístas, também, coitadas, falta-lhes vista. Se tivéssemos aprendido a pôr olhos nas cadeiras talvez elas se pudessem revoltar. No meu caso porém, a minha cadeira era uma daquelas de anfiteatro. Com uns rasgões na pele que dão logo para perceber a sua loucura. Nem me apercebi que a tinha magoado ao sentar-me, mal delas que nunca se habituam ao sofrimento. Mas também aguentam-no conformadas. Numa eterna sofreguidão de se dizerem a si próprias quando um dia corre bem ou mal. Até entre elas próprias conversam, “Hoje foi bom, nem houve ninguém que se descuidasse para cima de mim”. Outras resmungam com a velhice. As mais novas sentem medo, mas regozijam-se por serem cadeiras e não calças. “As calças passam muito mais do que nós”. A minha cadeira em concreto não solta nem ai, nem ui. É uma cadeira conformista, Doutorada em estofos de pele. E vive eternamente de peito aberto por causa de tal condecoração. Vale-lhe o rasgão e cus bem sentados. Á parte disso é uma cadeira imóvel e fria.
- Sente-se que eu ainda não dei a oral por terminada.
Às vezes a maior dificuldade é mesmo distinguir cadeiras e humanos.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

II - O Chapéu e o Sol

Fixados os três pontos
Em alegorias de um rectângulo
Quase quadrado, quase bola,
Quase qualquer coisa independente
Da imagem fractal criada pela memória.
Dizem que a recordação tem uma carga emocional
E que a geometria se satisfaz
Nas construções sistemáticas do medo
E a culpa é do homem
Posto à prova perante a natureza.
Seria então o Universo falso
E tudo aquilo que vemos somente
Um sentimento primário
Arrecadado ao longo de milénios até ao Homo Erectus.
E perante esta conclusão
Chega-se o absurdo em tons cromáticos
De tudo o que vemos é um sinal de fraqueza
Uma incompletude que vive a aculturar-se
Na sociedade da cegueira.
E a loucura não é ver,
Mas sim viver em conformidade com o único dado absoluto:
A razão de ser das coisas
Somos nós -
A viver em função do medo.
Apaga-se o medo
Disfunções da imperfeição
Para ousarmos ser deus
E arrecadar ao longo de uma vida
Tudo o que seja viável de nos tornar
Um simples objecto.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Frankenstein

Onde estás mãe?
Eu que te arranquei à força
O ventre sujo das tuas entranhas
Que te limpei o sangue
Sujando o meu corpo em dor.
De uma sujidade que nem arranhando,
Nem cortando,
Nem suicidando
Sai.
Seria a natureza assim tão cruel?
Porventura teríamos apenas
Um cordão a ligar-nos
Como se fossemos tubos de ensaio de deus.
Impregna-se em mim este silêncio
De que faça tão parte de ti,
Como faz um intestino
E que de ti traga inflamado
Um mero apêndice quando na verdade
Até consigo ouvir-me e esquecer-me
Que vivo -
Como quem tenta esquecer que pode morrer.
Que maldade me fizeram os homens,
Minha querida mãe?
Por me tomar uma parte ensanguentada
De ti e de mim ter apenas
Doenças incondicionais -
Como o Amor -
Que se alastram no meu próprio ventre
Para darem à luz
Uma réplica ausente de mim.
Porque nos criamos feios, mãe?
Será natureza
Ou humanidade?

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

I - Perder

Vai um curto espaço de tempo
Desde a aba do chapéu até ao lugar
Em que o sol se põe.
Comprados em segunda mão
Tanto o couro como o calor
Seguem-se-lhes a terra que já foi húmida
E um par de mãos já antes tocadas
Como tudo em Karmaggedon.
Ferem-se-lhes a textura e horizonte
Porque o que dói no mundo das coincidências

Um chapéu não ter horizonte,
E um sol não poder ser tocado;

Costuma dar resultado em acontecimentos.
Seja porque Hoje é noite

Faz um frio de rachar

E nem um guarda-chuva tenho

Muito menos um chapéu

Vão chamado por mim os dias
Processos irrefutáveis
Da desnecessidade da existência,
Do que lá vai no passado.
Como se fossem incontáveis
As horas feitas na servidão dos objectos.
Seja porque é fácil esquecer
A necessidade do quotidiano
Quando a vida é uma linha de montagem
Pré-fabricada, pronta a ser consumida
Num apartamento
Com direito a Take-Away de felicidade.
Pois tudo o que existe é preciso
No momento em que nada
Seria Suficiente.
Ou seria o nada
Quando o exacto nos
Padece em todos os lugares.
Receitas e despesas incontáveis
Em electricidade gasta na fruição
Da claridade.
Angústia seria unicamente
Desejar ter vivido mais paixões
Como julgar a água limpa que despeja a merda
E descobrir que ter sede é recordar,
Mas perder um chapéu
Quando se anda à chuva
Não é culpa, seria:
Simplesmente ter sol
E ligar o candeeiro

para se observar o último modelo de Abat-Jours da Ikea.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Uma parede de vidro a formar escaravelhos nocturnos
As suas patinhas deambulam, escorregam junto do reflexo
A caírem contra a chuva que bate na janela
Como se surpreendesse o corre-corre da rua.
Escaravelho pela simples razão de poderem ser escaravalhos
Caralhos me surpreendam:
Há um homem do lado de lá.
Com as suas mãozinhas a escorregarem contra a minha face
Lá fora, à chuva, sem razão aparente
Muito provavelmente nenhuma sem surpreender a minha pressa
Caralhos pela simples razão de poderem ser amor.
O amor me surpreenda:
Está um homem cá dentro.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Há uma cisão entre a diferença que é olhar
E ver-te.
Abominando os traços das tuas pestanas
Como se fossem traços descontínuos
Numa estrada a dividir os carros que vão
E aqueles que vêm.
Ferindo-se lentamente entre os espaços
A descortinarem a íris que é minha
Quando te vejo
E tua
Quando te olho.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Andaste o dia inteiro à procura de motivos para sofrer
Ai os tens, a mais de mil metros de distância
E uma música para a nostalgia.