sexta-feira, janeiro 22, 2010

Miragem em sucalcos


Quando a memória se atenua
E pisa os lugares consumidos a medo
De onde chega o passeio talhado
Pelos cegos pés que nunca souberam parar a tempo...

Nesse vinculo ficou preso
A sua esperança depositada e desenfreada
Como se não tivesse mais onde se agarrar
A única solução é o embalo do passado...

E se nunca chega o tempo outra vez
Onde tudo precisa de recomeçar
Não há mais memórias a reter
Neste tenebroso presente

Os dias escondem-se de mim
As horas prolongam-se até ao fim
O fim que nunca vem
O fim que é o mais de mim!

domingo, janeiro 10, 2010

Refeição

Viste o fosso que nos separava?
Um homem que limpava os cantos da boca,
Sujos de restos, com a ponta dos dedos;
A senhora que se acocorava junto à sanita,
O autoclismo ecoava pela sala de jantar -
Quase que era isso que nos causava mal-estar.
O meu pé batia no soalho
Desafiando a rigidez da refeição.
Porém as sopas já estavam fria de esperar
E os teus olhos cansados de vociferar.
Chegavam e vinham pessoas,
Pousando as moscas à beira do manjar
E a velha televisão emitia ruidosa
A banda-sonora da solidão;
Ou não fossemos nós a fome que só consome o coração.
E o paladar uma forma,
Como qualquer outra,
De amar.