quarta-feira, dezembro 08, 2010

Chuva de Neve

O Escritor

As tijoleiras do quintal, tornadas sorrisos, e uma grande guerra. A terceira guerra mundial chega em bonequinhos verdes, de plástico, com os seus tanques e armas. Os últimos presentes de um último natal. No inverno a seguir tudo estava arrumado pela Dona Flores, e o menino tinha sido internado. Ao princípio desconfiou-se que talvez tivesse levado um tiro numa dessas batalhas infindáveis. Depois aperceberam-se que tinha uma mão a mais a crescer-lhe no lugar do pénis. O médico assinou o atestado de Escritor e mandaram-no para casa sem medicação.

Os primeiros tempos foram difíceis. A Dona Flores dava-lhe banho e ele brincava com o patinho de borracha amarelo. As águas tingiam-se de um verde marinho, morno e por entre as mãos enrugadas cresciam sereias a prometerem amor eterno. “Tudo o que eu quero é um jardim”, e a Dona Flores, preocupada com a loucura e sodomia deixava-o ao frio. Era a mulher que mais amava aquela criança, mais do que a própria mãe. Mas não lia. Não lia a macieira que se enchia de neve, e essa tristeza profunda de não existirem maçãs em todas as alturas do ano. Ficava o escritor, à neve, a comer maçãs invisíveis, com os pés frios sobre os azulejos da casa de banho. Eram as melhores maçãs do mundo, só porque as podia imaginar. A Dona Flores era incapaz de ler tais coisas que o Escritor já delineava dentro dele.

Um dia perguntei-lhe qual era afinal o grande problema. E ele falou-me de uma mulher que amava e que ele amava, mas que só se viam às escondidas. Mas depois ele respondia para si próprio “era bom que estes fossem todos os problemas do mundo”. Era esse, e os restantes. Os restantes problemas só tornavam este pequeno facto o maior problema. Se não houvesse ninguém para amar de que valiam todas as outras preocupações? O Ambiente, a política, a guerra, os recursos naturais, estudar, trabalhar… Desde então tornei-me Cristã. O escritor por norma não ia à Igreja. Dizia que amar um Deus é egoísta, com tanta gente para amar. Numa dessas conversas cujo tema voltava inevitavelmente ao Amor, um ser estranho juntou-se aos sonhos. Dizia-se economista. Contou-nos que tínhamos um tempo disponível para amar: o tem de se viver. Ainda por cima um tempo que não era mensurável por ninguém saber a data da sua morte. Era necessário proceder Carpe Diem. Pessoas para amar eram mais do que as que o tempo permitia para se deixarem Amar, para Amarmos. E por isso se devia simplesmente viver. O Escritor emborcou a cerveja de um trago, apagou a beata e foi-se embora da mesa de café. Horas mais tarde recebi no telemóvel uma mensagem: Sempre podes escrever um livro e deixar que ele ame por ti, seja amado em vez de ti. Eu, como boa Cristã, respondi: se procuras uma extensão da tua natureza faz um filho. E depois lembrei-me da morte, da Chuva de Neve.

A Morte

As Macieiras estão no planalto, onde todas as maçãs são as melhores do mundo, e a Neve não queima porque é água. E a Água num dos seus estados pode ser morna como a chuva que cai no México. E Desta forma tanto o corpo pode ser a maçã, porque é comida, digerida, e os seus nutrientes absorvidos. Porque quase tudo é celular. E quando me dei conta da terrível infâmia que era a morte, julguei estar a enlouquecer. E foi então que alguém me falou do Livro Tibetano dos Mortos. Decidi mudar de perspectiva, enquadrar-me: era Budista até ontem ao amanhecer. Porém, pelo caminho matei por querer um ser vivo. O meu peixe laranja na última semana ganhou umas manchas estranhas, castanhas. Já quase não conseguia respirar, as suas guelras enchiam-se de uma baba estranha. O Aquário ficou esverdeado, por muito que mudasse a água, e limpasse, limpando de hora a hora as tonalidades da esperança, voltava a morte à estaca zero. O Peixe, sem a minha certeza absoluta, encontrava-se a caminho das macieiras, ou talvez pertencesse ele próprio à água, eram Uno. Como Deus, como o egoísmo: os filhos, os livros. Matei-o a medo de o ver morrer e transformar-se noutra coisa qualquer. Se calhar podia ser a sua metamorfose. Um dia seria uma sereia capaz de amar o Escritor.

Julguei ver-me a enlouquecer uma vez mais. Mudei-me de perspectiva para ser uma Ateia convicta da Eutanásia, do Aborto, do Suicídio.

O Amor

O Escritor chorou meses a fio quando lhe falei destes estranhos acontecimentos. Depois disso liguei-lhe a dizer que seria impossível estar presente na entrega do prémio. “Não faz mal, eu também não vou, preferes ir tomar um café?”. “Só se for um café no México”. Duas semanas depois de ter desligado aquela chamada bebia um whisky na Praça de Londres, o mais parecido com o combinado era a Mexicana. Parecia que morríamos os dois naquele estado de inutilidade dos sonhos. E tudo se parecia ao mesmo tempo com felicidade. Apetecia-me dizer-lhe que fui campeã de natação, na classe de juniores, mas estaria a mentir redondamente.

Estavam cerca de quarenta graus em Lisboa mas em vez de o levar a ver o mar para encontrar sereias voltámos a casa. Os azulejos da casa de banho falavam de uma miúda que estava sempre bêbada e pedia auxílio para se lavar. Como a Dona Flores lhe fazia quando ele era criança. Não era o meu caso. Depois de escorregar e magoar a banheira ele ficou a olhar-me longamente. E no corpo procurava cicatrizes com a profundidade das suas. Mas a pele branca desembaraçava-se facilmente do abandono: a água apenas estava fria como sempre. Só os dias como estes me ajudavam. Não contava sequer com o Escritor, apenas com o calor. E enquanto passava champô pelo cabelo ele escutava o bater do coração. Que era igual em todo o lado, dizia ele. Dizia ele que os corações dos mexicanos batem da mesma maneira. E enquanto morria pensava em Chuva Morna – estando a água fria como a neve.

As mãos dele dilaceravam aos poucos. Porque é que nunca aprendi a nadar? Porquê? Ouvia os sussurros das maçãs e das sereias. Ele dizia-me que o meu corpo estava castanho, impregnado de merda de solidão. Deste modo seria impossível beber de um trago a infância porque eu era parecida com a sua mãe, mas quem ele procurava era a Dona Flores. O médico já me tinha prescrito a Eutanásia há muito tempo. Quase a conseguir ver uma luz ao fundo do túnel ouvi um diálogo à porta do Labirinto:

- Eu sou Escritor
- Se tu és Escritor que sou eu?
- Tu és um Anjo.

A Vida

É melhor que acabem com o meu sofrimento agora.
Não lhe chames isso, essa palavra é feia.
Então de que estamos nós a falar?
De Mártires, pessoas que dão a vida por uma causa, fazendo viver outros, vivendo para além da morte. Vivendo para sempre.
Mas eu quero morrer.
Nem sempre podemos ter aquilo que queremos.

E tu que queres Escritor?
Amar

quinta-feira, dezembro 02, 2010

sexta-feira, novembro 19, 2010

Ambiente

O azul incandescente, sofre de
Luz e filmes - Quase Noir, Quase sexo
Quase amor. Por enquanto disperso
Num velho universo de significados,
A única maneira de me solucionar
Será habituar-me ao que é novo,
Ainda que os ambientes me agridam;
As luzes, as cores, os semáforos,
A música da rádio, incham cá dentro
Por tudo te pertencer . E de ti:
Meu deus, De ti só faço suposições.
O hábito, porque existem livros e pianos,
Trata-se de uma cama - E eu, sempre ensonada,
Deito-me, beijo, volto a cabeça
- O Ego dos amantes espelhados
Em edredons bonitos, enrolado,
Narcolépticos do tempo. A doerem-me despedidas
Porque dormir, dizem-me ser um bem-essencial:
Como o Amor - Felizmente existem livros,
Os pianos e o quase - O é desta -
Os medicamentos - Os Cabrões - As Putas -
O Ego - Mais o Medo:
Quase que sim, paralelo mundo,
É da próxima, já amanhã, que volto:

Mas desta vez durmo na rua,
Eu, os livros e o piano.

domingo, novembro 14, 2010

The Eternal

Às vezes, pela manhã o café entorna
Molha-me as cuecas à espera
Do cigarro; Mais dos pensamentos
Porque os meus amantes querem todos morrer,
Menos tu - Logo tu que conheces bem
O valor da desistência & me ganhaste
Numa Slot Machine. Nessa noite
Não existiam cafés abertos
E a tua insónia tornou-nos
Parasitas do amor; Andámos a cidade
Inteira à procura de uma casa
Mas apenas tivemos direito
Aos jornais de distribuição gratuita.
O Prof. Mamadou estava capaz de curar,
Mas não existiam problemas:
Só o fantasma da minha Titi,
Com o seu guarda-jóias a falar
Coisas estranhas acerca da solidão.
Nem assim houve consenso
A cama já estava mais que desfeita
E tu a prometeres o prazer ao diabo
Coisa que se afigurou indisponível:
O contrato falava de amor,
Não de companhia.

Tudo o que estava disponível
Já vinha gasto e pela metade -
Avariaram-se-me os sonhos, Merda
Tinha que devolver tudo à última
Da hora, e os talões onde
Te dedicava o corpo em poemas:
Acho que se perdeu tudo; Excepto
O baralho de Tarot poisado
Nas mãos, no trautear das músicas
Inventando, Ao ponto de beijar
Todos os teus Arcanos sedentos
De infância e cheiros. Como daquela
Era uma vez duas princesas e
Uma Bruxa - Deixa-me acabar a história:
Percorremos a cidade, insónes
E tu já antes paravas nos bordeis
Eu servia de prémio, mas o contrato
Falava de amor, não de sorte,
Merda - Perdeste o bilhete
Em que te saiu o demónio,e agora
O teu carro ouve Lisboa em
Todas as estradas, e eu tenciono
Abandonar o Leito do Tejo
E partir, Parir um novo Rio
& Viajar para sempre.

segunda-feira, novembro 08, 2010

Está por todo o lado

O Ruído de Fundo

A música dos chocalhos entre corta
Dois abraços estranhos, Na cama vai imperando
Solidão e restos de um último suicídio.
Seria esse som nostálgico:
As caixas de música da infância
Em acordes de gemidos
Pois o sexo serviria como a um berço
Do amor recém-nascido.

A Flor Selvagem

Poderia existir uma melhor forma
De te mostrar como barrar as torradas,
Nunca te apercebeste que a manteiga se desfazia
E no final, era como se nunca
Nos tivéssemos dado ao trabalho de amar.
Ainda assim comemos juntos
Todos os pequenos-almoços do mundo:
Nos quartos de hotel ficavam sempre
As rosas de madeira que me oferecias,
A medo de veres murchar o teu caule verde.
Mas todos os dias
Te mostrei ser capaz de cuidar;
E de tanto cuidar
A terra servia à falta de manteiga:
Cegamente floresceste
E agora que te vejo partir
Reparo nos teus ramos.

E o jardim que tanto cuidei é afinal
Uma floresta.

domingo, outubro 31, 2010

O Amor

Faço amor contigo depois
De te ver dormir, nessa altura
Explodes-me em mil faces Tuas
Perdidas em todos os lugares
Que de mim não sabes.

Como se me soubesses visitar
Na janela que outrora via passar
O Peter Pan - Ao amar-te cada vez mais
Procuro-te em todas as esquinas,
Mas de ti apenas descubro pedaços de mim:

Por vezes ao cruzar a data marcada
Não encontro a morte,
Só a cadeira de baloiço em que te vejo envelhecer.

O Quarto do Suicida

Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta - um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito rectos.

E não era sem saída este quarto,
aos menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo - ou seja, ainda viva.

Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma -
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.



Wislawa Szymborska

quarta-feira, outubro 27, 2010

segunda-feira, outubro 25, 2010

Campanhã

Doeu-me Campanhã nos ossos todos;
A minha sopa a arrefecer, só me apeteceu
Apanhar o combóio de volta a casa,
Mas quando cheguei só me lembrei
Que não comi tudo até ao fim.
Recordei um poema que escrevi

E até esse ficou incompleto.

Só gostava de te encontrar
Porque me dizias que poderia ser a melhor,
Poderia ser tanto,
Até a madrugada me ficou entalada na garganta:
O sol nasceu e os teus olhos eram esverdeados como os meus.

Agora sou melhor e pergunto-me
Se algum dia
Comerei a parte que me faltou escrever.

sábado, outubro 23, 2010

Ao anoitecer

Que tipo de música queres ouvir? Amigo,
Se não te importares vou-me embora,
Em tua casa o copo está sempre cheio
E a minha sede é um estado de espirito.
Eu sei o que fizeste na semana passada,
Desculpa não ter dito nada quanto a isso.
O problema de sermos os dois grandes
É nunca cabermos nos braços um do outro:
De cada vez que me dás a mão
Toda a gente morre.
Calhou voltar a encontrar-te
Já os meus cigarros se estavam a acabar,
Foi por isso que não voltei,
Porque nem sempre tenho esta sensação:

De que o mundo está sobrelotado.

sexta-feira, outubro 22, 2010

Em cada 100 pessoas:

Sabendo tudo mais que os outros:
⁃ cinquenta e duas,
inseguras de cada passo:
⁃ quase todas as outras,
prontas a ajudar desde que isso não lhes tome muito tempo:
⁃ quarenta e nove, o que já não é mau,
sempre boas porque incapazes de ser outro modo:
⁃ quatro; enfim, talvez cinco,
prontas a admirar sem inveja:
⁃ dezoito,
induzidas em erro por uma juventude, afinal tão efémera:
⁃ mais ou menos sessenta,
com quem não se brinca:
⁃ quarenta e quatro,
vivendo sempre angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
⁃ setenta e sete,
dotadas para serem felizes:
⁃ no máximo vinte e tal,
inofensivas quando sozinhas, mas selvagens quando em multidão:
⁃ isso, o melhor é não tentar saber mesmo aproximadamente,
prudentes depois do mal estar feito:
⁃ não mais do que antes,
não pedindo nada da vida excepto coisas:
⁃ trinta, mas preferia estar enganado,
encurvadas, sofridas, sem um lanterna que lhes ilumine as trevas:
⁃ mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,
justas:
⁃ pelo menos trinta e cinco, o que já não é mau,
mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
⁃ três,
dignas de compaixão:
⁃ noventa e nove,
mortais:
⁃ cem por cento, número que, de momento, não é possível mudar.

Wislawa Szymborska

Love and Caring





Olha-me só para o que fizeste. Voltaste a estragar a tua camisa
favorita nessa impaciência de me esqueceres,
A minha cama está aleijada, deixei de tomar banho
E agora a masturbação sabe-me a estupidez
Por me amares tanto e não me saberes tocar:
O meu coração pulsa no lugar do clitóris:
Tenho corpo todo do avesso, às vezes até
Só me sai merda pela boca.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Óscar da Silva, Saudades





Vou voltar para o sítio de onde vim:
Algures entre o impressionismo e a leviandade.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Plaid - Where?

Tenho dúvidas quanto a regressar...


quinta-feira, setembro 30, 2010

Uninvited

Não destruas a minha flor,
Agora tu, que entras em casa
E apenas pediste um copo de água.
Não destruas a minha flor,
Viva da mesma tepidez
A que te alastra a garganta fresca
Fazendo borbulhar o teu estômago
E as suas pétalas.
A minha flor é a mais bonita,
E tu que vives da beleza
Já cobiças a minha flor.
Não a mates, peço-te, se me amas,
Não mates a única flor que guardei no jardim.
Espera-me todas as noites no teu regaço;
As flores não se preocupam em pensar,
Só precisam de água, sol
E um jardineiro. E tu só precisas de mim,
Não da minha flor.

terça-feira, setembro 28, 2010

Quando escrever dói

Tu já sabias que o tempo
Urgia do lado de lá,
Atrás das escadas, porque as desces
E cá em baixo encontras toda a gente
Menos alguém. As tuas mãos tornaram-se
Incapazes nas teclas, apercebeste-te
Que estás tão longe, que talvez o problema seja esse:
Não tens que ir a lado nenhum.
E sem dares conta já passaram
Dois Outonos, outra coisas,
E o silêncio é na verdade outros diálogos.
o que te obriga a pensar numa solução
Para a falta de paixão, e de novo ouves uma velha frase:
só se escreve na solidão.
Aprendeste a não fazer rimas,
Mas a propósito delas, lançavas uma corrida
Até ao fundo do corredor:
Perguntando-te o que seria afinal poesia.
Deste por ti a receber o epíteto:
Cultor de palavras, mas de nada te servia
Para ouvir música e ler livros.
Muito menos para amar.
E por te faltar tamanho entendimento
Os jardins à tua volta floresceram
E abraçaste a nobre a profissão de Jardineiro.

Infância

O sol embrutece, atirando a bola
Junto aos olhos gastos em tardes
De verão e postais com paisagens.
A mãe preparava momentos, nessa
Solução líquida, engolia a menina
E de arrasto, raramente os relógios
Se moviam. Porque nos era infinita
A infância e o trago de coca-cola.
Manejando lentamente o pó voador
Apenas verificável junto aos traços
De luz vindo da brechas.
Raramente nos fechavam a persiana,
Para mal dos nossos males, os ramos
Sempre pareceram homens estranhos,
De narizes grandes e protuberâncias
Porque os armários da roupa seriam
De pinho não limado, à prova de água,
Mas não de estupidez. Geralmente era
Ai que alguém caia!
Para mal dos nosso males
Ninguém se importava.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Reminiscências I

As flores das laranjeiras
Levaram ao peito um poema sobre Lisboa
Onde jamais cresceram árvores, de qualquer tipo.
Era nesse espaço que o sol se atrevia a pôr
Largando à meia-noite um ovo
Que não floresceu em amor eterno,
Porque até os pássaros morrem.
E era com isso que se contava:
Os dias mentindo acerca de tudo,
Inclusive do tempo disponível para amar.
Tempo infelizmente gasto em poemas.
Pois dá-me agora a ideia de que te vais embora
E no entanto,

Já te fiz Imortal.

quinta-feira, agosto 26, 2010

O Leite

O metro apinhado arranca por entre os túneis. Pingam sobre as carruagens gotas de sangue. O indivíduo que lê o jornal morde o lábio, ela descruza a perna e por entre a saia curta é possível ver que hoje vai oferecer o sexo mascarado de vermelho. Tingem-se as janelas dessa substância viscosa, como a gota de suor que lhe cai desde o lóbulo da orelha até ao fundo do pescoço. E simplesmente porque ao fundo do amontoado de cadeiras se notam uns joelhos curiosamente tapados com aquilo que parece ser cabelo. Ou serão os olhos esverdeados que não se deixam mostrar, e a franja cuidadosamente arranjada, caída sobre o mamilo esquerdo. Lembra-se dos seios da sua mãe, porque apesar de não serem belos lhe pareciam felizes. Mamou neles até deixarem de existir, por volta dessa altura teria cincos anos de idade. Nunca antes seios alguns lhe pareceram tão felizes quanto aqueles. Pareciam dizer-lhe olá ao acordar, com um beijo na testa. Pareciam capazes de lhe fazer companhia para o almoço. Mas estes, talvez tivessem o poder de o fazer esquecer o cheiro do leite, esse odor que se entranha no corpo inteiro e nos devolve, com a idade, o azedo de pensar. Registou subitamente essa fisionomia frágil de pele branca e vestes negras. Teve medo de olhar para os lábios e apaixonar-se subitamente por outra mulher qualquer. Nesse instante um bebé começou a chorar com medo que o abortassem. E a mãe que o carregava abraçou-o com medo de o perder. Pois quando ela se levantou uma mancha escura de menstruação sujava o padrão feio do banco do metro. E ele pensou que mais ninguém lhe serviria para além dos seus joelhos brancos e seios felizes.

O metro parou e nessa estação saiu o homem do jornal, a sangrar do lábio, e o bebé com fome, a pedir leite em seios cansados. O sangue continuou a escorrer, deixando o sabor metalizado nas demais bocas cheias de fome. Mas ela manteve-se de pé. Deixar-lhe-ia apenas um rasto pelo caminho que ele seguiria como Hansel e Gretel de volta a casa.

Pelo caminho não sentiu esse cheiro a azedo que o impregnava. Desde a infância que sofria de problema otorrinos. Aos cinco anos tirou ela os adenóides e as amígdalas, conservava-os num frasco com líquido em cima da mesinha de cabeceira. Depois disso partiu irremediavelmente a cana do nariz, numa queda que também lhe afectou a parte do cérebro ligada ao cheiro. A sua maior desilusão foi ter partido aí a sua bicicleta e nunca mais ter tido dinheiro para comprar outra. Aos quinze anos a sua maior prenda foi ter deixado de receber prendas, pois já não existia espaço no quarto para mais bonecas de porcelana. E por causa destes acontecimentos ela foi obrigada a confiar permanentemente em todos. Incluindo esse homem estranho que se dirigia pela mesmas ruas que ela, que a espreitava por entre os cantos dos olhos, sem nunca a entanto ver. Era incapaz de cheirar o espírito, da mesma forma que a amedrontava todos aqueles que focam o olhar, tal como as bonecas de porcelana fazem sempre. Mas No fundo era feliz, ainda que alguns lhe chamem ignorância.

O lobo escondia-se entre a floresta de betão. Feio, sujo, omnipotente. A corcunda atravessa-lhe o desejo. Sempre gostara dos dias reluzentes de verão, lembrava-lhe a puberdade, o cheiro a suor das meninas que ainda não sabem que são mulheres. Pareciam porquinhos a assar ao sol, sentadas nos baloiços de madeira. E a mãe tapava-lhe os olhos com medo que ele crescesse e se fosse embora. Que mais razões tem um homem para partir para além do amor? Ou da falta dele… E por isso de noite ainda lhe perguntava de mansinho se ele tinha fome, se lhe apetecia um copo de leite com açúcar e as aventuras de Tom Swayer e Hucleberry Finn. Aconselhava-o a viajar só nos livros, porque a cabeça de alguns homens não é tão boa quanto a dos escritores de contos infantis. O que ele não sabia é que até esse violam meninas por altura do pôr do sol. E durante noite o esperma saia-lhe sem querer, sem razão aparente. E a mãe batia-lhe com uma vara de madeira, que poderia ser tudo. Um remo, uma árvore, uma perna de menina, uma pila de um gigante bastante magrinho. Porque quando se é criança o mundo tem uma proporção geométrica perfeita e qualquer coisa nos seios felizes da mãe lhe faziam doer menos as pancadas. Talvez se resumisse a amor. Numa dessas noites ele quase morrera às mãos da vara de madeira. E enquanto lhe batia a sua camisola vermelha manchava-se de um liquido estranho a correr-lhe os mamilos. Como aquela gota de suor. Como o sangue menstrual. Como a obsessão. Foi aí que percebeu que ia acabar por o matar. Parou, tirou a camisola e deu-lhe de novo esse elixir da juventude. Como se tratasse de um milagre, uma oferenda de Deus, um caminho a seguir. E ele bebeu com sofreguidão esse liquido meio branco, quase transparente. Abriu-lhe o soutien desajeitadamente, como só um adolescente faz, e bebeu tudo o que a mãe lhe tinha para oferecer. E mais ainda. Bebeu tanto nessa noite que os cabelos dela esbranquiçaram, e a sua face ficou de tal modo magra que a pele se desprendeu dela, formando rugas de todas as formas e feitios. Os seus seios ficaram irremediavelmente feios e descaídos. Ele bebeu tanto dela que acabou por lhe roubar a sua própria juventude. No lugar dos ovários nasceram cancros a atrasarem-lhe a morte. Os olhos cegaram permanentemente com glaucoma e as suas pernas já não comandavam às suas ordens. No final ela sentou-se num sofá a ouvir para sempre as telenovelas da tarde e ele tinha-se tornado um homem da noite para o dia. O que nenhum dos dois sabia é que nessa noite morreram ambos.

Os joelhos brancos passam a porta de entrada e ele entra atrás. Diz-lhe que se apaixonou e pede-lhe um broche no hall de entrada. Ela ajoelha-se com uma máscara de coelho na cabeça e pede-lhe que a respeite. E com o tempo aperta-lhe o pescoço cada vez mais e mais até ela morrer. E mesmo no último minuto ela jurava-lhe amor eterno numa esplanada de um café perdido nesta cidade. A conta chega num papel esbranquiçado, quase a lembrar cartas de amor, e lá vinha assinalado: um batido de morango 2,50 euros. Ele paga e manda-a embora antes que o beba até ao fim.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Les jours tristes

o autocarro partiu sem ti
à decisão contra natura de ficar
porque de vez em quando espreitas o céu
e imaginas-te longe,
mas não tão perto quanto ir.
a loiça da cozinha ganha mosquitos
todos em número suficiente para serem teus amigos
e a cama desfeita nem parece tua
por seres habitado por toda a gente
menos pela lucidez;
e todos eles fumam
mas é a ti que te custa o catarro verde.
já perdeste pelo caminho as moradas que pretendias guardar
por isso mesmo que não quisesses
as tuas viagens são incertas.
nunca é bom dia para arrumar o quarto
existe o medo de encontrar um papel,
um poema, uma caminho de volta ao sorriso -
porque esse sorriso não é o teu;
tentaste consultar as bulas farmacêuticas
mas nada te convence de que solidão
seja doença,
e as prescrições são de há três anos atrás
e nessa altura até te apetecia morrer,
mas hoje nem isso.
podias deixar-te à fome,
mas aperta-te o espírito por algo bom
mas em vez de comeres masturbas-te.

Ao despertar

ouves o que te dizem, mas é quase cego
porque acordaste sem saber
se ainda sonhas ou se já vives
mas é quase cego, porque de vez em quando
se escolhe sonhar nas vezes de viver.
a almofada doí-te nos olhos acordados
e a tepidez arrasta a claridade
encharcando a face que se julga suada
pronta a devorar de novo o leito
como se o dia estivesse para acabar

infelizmente foi a manhã que acordou morta.

domingo, julho 25, 2010

Deixei de escrever poesia, porque
O barulho do tráfego já não parece música
E a música já não se ouve,
Lisboa está cheia de traficantes e putas,
Deixaram de existir sonhadores e amantes.
Porque já não me saem palavras da boca,
Ao invés de meter a palavra vómito a cada verso.

Tenho medo de me ter habituado à violência.

These Days

Se calhar devia estar sozinha. Mas já não o consigo fazer. Mesmo assim, assombram-me o teu passo seguinte, a próxima manobra. Que palavra terei eu de dizer para te fazer feliz. Hoje sonhei que era uma prostituta japonesa à espera do teu pagamento. O que me ensina a pior coisa do mundo. Ninguém consegue dar sem receber de volta. E o amor é uma doença sem perigo de contágio

quarta-feira, julho 21, 2010

Um café às 4 da manhã

Um dia tive um amigo que me disse que detestava a palavra solidão na poesia. Dizia-me que a solidão é algo que se descreve e não se inutiliza numa única palavra. Para mim na altura tanto me fazia, não entendia esses rigores. Ainda não sabia que a solidão era mais do que se estar desacompanhado. Ás vezes sorria simplesmente e continuava a minha vida. Porém as coisas chegaram a este ponto caótico de continuar a sorrir sem me apetecer continuar. Faço por me esquecer das minhas errâncias nocturnas em busca de companhia. Apago-me nos maços de tabaco e apesar de já não acreditar no amor, continuo a amar. Ás vezes detenho-me junto à cama e apercebo-me que estás tão só como eu. Geralmente dormes profundamente, sem te dares conta que me doem as cicatrizes. As tuas e as minhas. Porque por muito que nos estejamos a diluir em egos opostos, continuamos a espreitar a vida através das fechaduras do corpo. É assim mesmo que acontecemos. Toda a gente é assim, dizes-me. Acostumaste-te aos barulhos dos vizinhos. Acostumaste-te de tal forma que já não dás por eles, já não te magoam as paredes que te separam deles, tal como já não te magoa os corpos que nos separam. E entre todas as subtracções dou-me conta mais das limitações que dos prazeres. Hoje em dia já é necessário que me rasgues a pele para que me faças viver. Porque a maioria das vezes que me olhas já não me vês. Ainda bem que não o fazes.

(s)Ex-Alcool

Costumava existir uma diferença. Uma diferença vulgar que separavam os jantares dos jantares fora, das mesas de vidro e de madeira, o facto de o vinho ser bem amadurecido ou estar ligeiramente quente demais para a ocasião. Ou como acontecia a maior parte das vezes, o vinho chegava e logo a seguir pedia um recibo para as contas do IRS. Costumava ser assim. Umas vezes vinhas, outra chegavas atrasado. O problema destas coisas está muitas vezes na casta da uva, se é Douro, Dão, Tejo. Ou se o verbo vir é empregue literalmente ou com álcool à mistura. Sem contar se vamos acompanhar com amigos, amantes ou desconhecidos. Sublinhando o facto de o prato poder ser carne ou peixe, e haver quem prefira bacalhau, e haver igualmente quem prefira um bom bife da alcatra. É vinho. E quase que poderia ser outra coisa qualquer.

The Funeral

A chuva cai lá fora e alguém do lado de lá acena. Apetecia-me dizer adeus, como aqueles adeus com certezas absolutas. Mas raramente se faz isso, é politicamente incorrecto dizer adeus para sempre. É socialmente incorrecto, nas cidades grandes, acenar-se se quer. Os desconhecidos passam uns pelos outros sem se aperceberem de cada um é como o outro. Mas isso também não choca ninguém. A pior coisa que pode acontecer é alguém chorar na via pública. Um dia aconteceu-me isso e ninguém disse nada. Tal como ninguém diz Adeus para sempre. Nunca sem estar carregado de uma última foda, ou de um último jantar, ou de uma cama de hospital, ou com flores à volta do nosso corpo pronto para ser atirado de volta à terra. É socialmente incorrecto dizer-se adeus para sempre noutras circunstâncias. Existe também aquele homem em Lisboa que fica à porta das estações de metro a acenar às pessoas. Dizem que está louco. Eu tenho-o como lúcido, talvez um pouco parvo por acenar várias vezes à mesma pessoa em dias diferentes. Ou serei eu parva, nem sempre se acena para dizer adeus, também há quem diga um olá. Fragilidades do destino ou conveniências do Karma, a última vez que voltei a mudar de casa passei a ter esse homem como vizinho. Acena-me todos os dias: é o mais bem-educado dos que vive ali na zona de Arroios. Custa-me saber se diz adeus, se diz olá, só tenho a certeza que esse não está louco. Esse não diz adeus para sempre. Eu sou um caso diferente. Já disse adeus para sempre. Raras vezes aconteceu para sempre. Em dois casos particulares, até agora contam como sempre. Nos dois casos não houve grandes formalismos à volta da coisa. Se os voltasse a encontrar na rua seria à mesma adeus para sempre. As pessoas não acabam, excepto se morrerem, tirando isso o que acaba são as situações. E há situações que têm prazo de validade, uns mais curtos, outros mais longos. As que marcam mais deveriam merecer funerais, mas desisti de ritos sociais há muito tempo. Na verdade choca-me o Adeus explicito porque esse geralmente não significa o fim de nada. Muitas vezes há quem viva para além do funeral. Há quem viva para sempre, mesmo depois do prazo de validade das situações. E contra isso não há nada a fazer. Não existem velas suficientes no mundo para chorar as memórias e esquece-las de uma vez só. Às vezes penso que o melhor mesmo era deixar os corpos mortos, as recordações, a apodrecerem à porta das estações de metro. E deixar-nos levar pelo cheio nauseabundo da decomposição das situações. Só para nos mostrarem que ainda existem e agora estão inutilizáveis. Gostava de ver os entes falecidos levantarem-se das suas tumbas como se fossem mortos-vivos. É bom que o que morreu continue morto. E por isso é bom, às vezes, matar propositadamente: para que nem vivo se levante da sua tumba.

A primeira despedida foi algures no tempo, sem direito a funeral. A segunda teve um funeral tácito. Lembro-me que lhe reproduzi no braço as teclas de um piano. Estávamos numa velha estação de camionagem, e os dois sem termos um sítio a que pudéssemos chamar casa. Fragilidades do destino. A partir do momento que subi no autocarro soube que nunca mais o voltaria a ver. A primeira despedida já foi diferente. Prometeu-se que não haveria funeral, nem que seria uma despedida. Infelizmente já estávamos decepados e não existia reconhecimento possível.

Existem funerais que custam mais que a morte. E mortes que custam mais do que funerais.

sexta-feira, julho 09, 2010

Tenho um amigo que adora falar sobre Nada.

Ele pega na sua bebida e explica-me que a realidade é a consciência de nós mesmos. Quase nunca acredito nele. ACreditei uma vez, quando ele disse que me amava. Mas na verdade também já não sei se acreditei em mim ou nele. Depois do terceiro copo voltou ao tema central com mais lucidez. Disse-me que lhe tinha sido detectada uma esquizofrenia. Não interessa o tipo. Eu julguei que fosse inteligência e não doença. "Se calhar sofro do mesmo", disse-lhe. Ele perguntou-me pelas alucinações. "Alucino paixões". Sim, é o mesmo problema, pensámos ambos. "Nunca entres num psiquiatra, eles vão fazer-te tomar medicamentos que não são importantes, ao invés aprende a viver com as paixões". E ficámos em silêncio, quase uma eternidade. Porque de facto não era importante, as palavras têm o mesmo efeito que os anti-psicóticos.

sexta-feira, junho 18, 2010

quinta-feira, junho 17, 2010

América Latina

Tocaste-me na ferida para variar. Sabes bem que não aguento com essa música. Porque me faz lembrar as raízes adormecidas. A América latina fica mais perto. E o pior disto tudo foi apenas saber que metade do meu sangue a lá pertence. Fora isso não conheço mais nada. Não tenho essa cultura, nunca vi o meu pai, nunca provei empanadas, nunca ouvi a música. E no entanto tu tocaste-me na ferida. Porque me dói a América Latina, quase como se fosse minha. Não o sendo racionalmente. Mesmo se nunca tivesse sabido o meu verdadeiro nome ser Reyes, para sempre choraria os golpes de estado, os embargos, a guerra fria, os ditadores e as marchas esquecidas. Porque é este sangue que queima os músculos trazendo de volta as guitarras, para trás e para frente, sem me aperceber que apenas é sexo latino. Porque me ardem as lágrimas, e mesmo assim choro a vulgaridade. E depois de chorar bebo. E depois de beber não me resta nada para além da nostalgia. Como a qualquer escritor latino-americano. E faço de propósito estas pontuações, lembrando que poderia ter como língua materna o castelhano e não o português. Sem me aperceber que afinal de contas é quase a mesma coisa. E furiosa pego o teclado fingindo-o de adamastor do ADN. Pois custa tanto o cabo das tormentas como atravessar o deserto de Atacama. Embora raramente tenha cruzado o metro de Lisboa para além de estação de Odivelas. E o problema é aperceber-me que de facto essa é a última estação. Pois o limite é uma coisa variável ao tamanho do sonho. E eu sonho nunca chegar. Pois a verdade é que sonho sem destino. Procuro lugares em pessoas e pessoas sem casa. Como eu, que não compreendo os porquês de tudo me amordaçar, arriscando preferir morrer em vez de lutar. E tudo porque simplesmente nunca me sinto em lugar algum. E passo todos os dias pela provação de que talvez o encontre nessa. Nessa América Latina.

segunda-feira, junho 14, 2010

Frida Kahlo - Lila Downs Llorona

The only people for me are the mad ones

The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to
live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same
time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn,
burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders
across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop
and everybody goes "Awww!”

Jack Kerouac



I

Ela mantém-se de pé na pequena pista. Uma pequena luz vermelha ilumina a perna, incidindo especialmente sobre a liga preta. Serve-lhe bem esse pequeno adereço de amor. A coxa é demasiado bem torneada para que servisse melhor a qualquer outra mulher. À sua frente está um homem de quarenta anos, mas pelo aspecto não aparenta ter mais de trinta. Sempre o conheci assim, novo demais para todas as ocasiões. Sempre pensei que nunca tivesse idade para entrar numa casa de strip. A ela nunca a julguei ver despir-se para desconhecidos. Sempre tão bem fardada e ciente do amor. Lembro-os distantes, tal como estão agora. A única coisa que os poderia unir seria umas parcas notas de cem euros, jogadas à bruta sobre o corpo dela, e simplesmente porque foi um fetish de que ele sempre me falou. As noites ao seu lado costumavam ser longas a esse ponto. Eu contava-lhe que estava apaixonada por um estrangeiro e ele dizia-me que gostava de se apaixonar por uma puta. Mas a verdade é que nem isso os ligava. Ela ainda era ciente do amor, a sua noção de intimidade é que mudara. Circunstâncias da vida, como eu costumava dizer-lhe nas despedidas.

Ela dá uma pequena volta no varão metálico, encostando a vagina que já arrefece contra aquele objecto. E nesse instante ele ousa desapertar o botão das calças e puxar a braguilha para baixo. Ela pára de rodopiar no varão. “Não estás à espera que o chupe…?”. Ele mantém-se em silêncio. “Ou o pões para dentro ou então a tua sessão privada acaba aqui, são as regras…”. O mais curioso nestas frases é que a ela conheço-a por Cátia e a ele por Mateus.

A cidade mantém-se imóvel, estática, congelando uma dançarina de strip e um homem que não tinha nada a perder. E dez quarteirões abaixo uma velha acomoda o soutien às mamas de silicone. Algo bárbaro que as senhoras faziam há cinquenta anos atrás. Hoje em dia a melhor forma de se aumentar os seios é através da aplicação de ar pelo poros da pele. A loucura era uma palavra que não pertencia no seu dicionário até chegar a velha. Pois tudo o que faz, consome, veste e diz é estranho e diferente. Nunca me ocorreu pensar que todos os velhos são naturalmente excêntricos e patéticos. A verdade é que o tempo não é nada relativo. E o que se faz hoje não se fará amanhã. A única diferença perante um verdadeiro louco, é a palavras solidão e descriminação serem mais recorrentes para classificar faixas etárias superiores. “Estou velha”, diz a mulher que sempre perseguiu a juventude. Pega na carteira, fecha a porta de casa à chave e apanha um táxi para as docas. Faz questão de jantar no melhor restaurante vegetariano da cidade, porque afinal de contas, nós somos aquilo que comemos.

Eu saio de casa já atrasada para ir jantar com a minha mãe. Do outro lado da linha a Cátia diz-me que se apaixonou por um cliente. Gostava de a poder ajudar, mas o quotidiano interrompe o afecto. Já se faz tarde para mim e o meu marido está de novo bêbado demais para ir jantar com a sogra. E por alguma razão, ao desligar o telemóvel, lembro-me que estou a mais de 1000 kilometros de distância de mim mesma. Nunca mais voltei a ver os seus olhos azuis, gastos de ver. E sem querer dou por mim sentada à mesa a ver a ementa do dia. É um conceito novo e arrojado de restaurante. Ouvi falar dele a minha adolescência inteira. O chef vem pessoalmente atender-nos e pelo canto do olho vejo a minha mãe tão velha a corar. “Nós comemos o que o chef recomenda” e ele responde, “sendo assim o vosso jantar será surpresa”. E mal ele se desloca para a cozinha a minha mãe sussurra, “oh deus, nunca pensei que o teu amigo fosse tão dotado, é uma pena ser gay!”. E à nossa volta todos os empregados de mesa servem os seus clientes, completamente nus da cintura para baixo.

Algures durante a refeição apareces tu sem aviso. É a minha velha mãe que te reconhece primeiro. “Olha ali o Tiago…”. E por baixo de uma barba enorme vejo uma boca a sorrir. Vens andrajoso como um maltrapilho. Sentas-te à mesa sem pedires, a vida fez-te corajosamente mal-educado. E atrás de uma gargalhada escondes-me num abraço apertado. Acendes um cigarro e eu digo em alto e bom som, “nós sempre fomos mais amigos que amantes”. E tu simplesmente respondes, “com que então és uma daquelas pessoas que me pagam o salário”. “ Desde o primeiro livro!”. E tu desatas a falar mal das editoras, dos escritores, de Apolo, de deus, dos empregados nus, das mulheres, dos vegetarianos em geral, dos velhos, dos políticos e até do passado. “Porquê o passado?”, pergunto-te eu. “Porque não confio na memória, ando a vê-lo demasiado bonito”. E todos sorrimos por teres dito a palavra “bonito”.

“Onde estás tu, Lígia?”, pergunta o silêncio. E antes de ouvir a resposta já estou de novo a beber um martini enquanto uma amiga de infância desliza como uma serpente pelo varão. A música que toca faz-me chorar. Alguém a mais sabe que estou aqui. Porque de repente começa a nevar, como nunca nevou em Lisboa. E as minhas mãos ficam gélidas tentando encontrar outras, vindas de um país onde nunca neva. “Quem és tu?”, “Onde estás tu?”. Toda a gente usa uma máscara para não ser reconhecida por estar num lugar como este. Hoje em dia está na moda a moralidade. Em que cave ou bar se esconde o acaso? E é ai que ouço uma voz masculina a perguntar pelo meu nome. Será o acaso uma pessoa de carne e osso? Quem se esconde atrás do acaso e me prega partidas? Qual dos mascarados será ele?
“Lígia estás bem? Já não te lembras de mim? Sou o Mateus…”. “Mateus… O que é feito de ti?”. E vejo-o a querer prender-se para sempre à mulher do varão. Os seus olhos ficam infantis, tal como o sorriso, sempre a abrir-se em câmara lenta, cada vez mais e mais. E ela dança para ele, esteve ali o tempo todo a dançar só para ele. “Consegues ouvir a música?” pergunto-lhe eu, “claro que consigo, Lígia, acreditas em coincidências?”. Não. “Eu também não”. Agarra numa grande folha de papel e começa a desenhar uma perna esticada contra o varão.

É ai que me dou conta que os mortos conseguem ser mais loucos que os velhos, mais loucos que a própria loucura. Por ser simplesmente insano passar às quatro da manhã música clássica num bar de strip. “Quem és tu?”, “Onde estou eu?”. E alguém me diz para ter calma e ser paciente. “Porquê António Fragoso?”. E da penumbra das luzes negras vejo o rosto da Judite. “Sempre te ouvi dizer que só ouvias músicos que já morreram, porquê tanta coisa agora?”. “Só podias ser tu Judite…”. E ela beija-me os lábios e diz-me que sentiu a minha falta. Fui-me embora porque queria viajar. “O problema é que acabaste por nunca ter viajado”. Sim, é verdade, não viajei com o inteiro sentido da palavra. “Já não és tu que falas, é o teu cão”. “Mas, eu nem sequer tenho um cão”. “Isso é o que tu pensas”, diz-me ela enquanto me acaricia os cabelos. Nunca nos tínhamos beijado nem tocado antes. “Também não queria esperar pela morte para o fazer”. “Fizeste bem, agora já levamos algo mais para o crematório” Porque são loucos os mortos, mas não a morte.

Saio do bar e eles perguntam-me se preciso de boleia. Não, vou a pé para casa. E mal o carro de perde no horizonte começa a chover. Ao fundo da rua vejo uma cabine telefónica. Perco-me nos olhos azuis outra vez para me ouvir do outro lado da linha a dizer “Quem és tu?”. “ Sou a Lígia, lembras-te?”. Sim, a rapariga que nunca soubeste dizer o nome por ser complicado na tua língua. “Onde estou?”. E ele ouve a resposta para me dizer que vai agora apanhar um avião para Lisboa. “Chego amanhã de manhã”. Desligo o telefone e caminho em direcção a uma cama onde alguém ressona demais por causa da bebedeira. Acendo a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira.

O meu marido barafusta, pede-me que o deixe dormir. “Amanhã de manhã já cá não estarei, vou viajar”. Ele levanta-se, e começa a fumar um dos cigarros que estão espalhados pelo chão. “É ele não é?”. Sim, é… Ele começa a rir-se. “Sabes, estou há mais de vinte anos à espera que tomes uma decisão, fico feliz por finalmente a teres tomado”. “Como é que sabes…?”. “Porque o consigo ler no teu olhar, desde que te conheci que carregas essa merda no olhar e agora puff, finalmente desapareceu!”. “E ficaste comigo mesmo assim?”. “Porque te Amo”.

Dou-me conta que o Amor é a maior das loucuras.

“Mas eu podia ter-te deixado a qualquer outro momento, podia ter fugido, podia ter-te enganado, traído, fazer da tua vida um inferno”. “Sim, e pode ter acontecido isso em algum momento outro, mas o que é certo é que tu há mais de vinte anos é que estás comigo mesmo assim…” Deitei-me ao lado dele a pensar que andei estes anos todos a formular as perguntas erradas. “Anda, não chores, não vale a pena…” diz-me ele enquanto me beija a testa. “Eu sei que amanhã de manhã já te foste embora, mas não te preocupes, vou cuidar da casa para quando voltares.” “Achas que volto?”. “Não sei, mas se vivi mais de vinte anos na tua indecisão sou capaz de viver mais outros vinte. Quem sabe mais…”.

Nessa noite eu e ele fizemos amor e adormecemos. Quando acordei dei-me conta que tinha partido para muito longe sem sair daquela cama. Por nunca saber ao certo quem sou ou onde estou. No entanto acontece chegar a casa e ouvir os sussurros de um velho irlandês a contar aos netos como um dia foi para Lisboa à procura de uma mulher que nunca encontrou. E os pequenos perguntam-lhe se ele não ficou triste. O velho sorri e responde com uma frase de um dos seus autores favoritos: “The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders”.

sexta-feira, maio 28, 2010

Paixão



Deixei passar o prazo de validade
Para variar, vou ganhando peso longe do corpo
E há quem diga que até já me esqueci
De todos os produtos que consumi.
Sem saber que a fome é volátil
E na verdade, depois da morte
Fica-nos o travo amargo no hálito.
Se ao menos me esquecesse dos pormenores
Poderia viver tudo outra vez:
A saliva de alguém a secar-me os cantos da boca,
E principalmente:
As horas de palavras que ficaram por ceifar.
Tudo à conta do tempo disponível
Para o mundo mudar
E deitar fora os jornais de ontem.

segunda-feira, abril 26, 2010

Até à Califórnia
Para o João e Ana Rita

Éramos os três no teu velho Mustang,
A conduzires do nosso velho bairro
Em direcção à Califórnia.
Ela estava sentada ao meu lado
Nos seus lábios rosa
Expressando a vontade
De dar uns quantos primeiros beijo
Em bocas virgens e almas tristes.
Tu, com as mãos atadas a um volante
Conduzindo uma guitarra solitária
Guiando-nos através dessa música
Em direcção ao paradeiro de San Francisco.
E eu a tentar sentir a aragem da liberdade
Sobre os meus pés desnudos,
Atravessados na janela de um
Chaço chamado vida.
Seguíamos viagem numa estrada já gasta
Em sonhos solúveis no ouro
De uma terra que nos parece distante.
Pelo caminho, atravessando quase 50 Estados
De pura indolência pelos sinais de trânsito,
Optando pelos atalhos mais distantes,
Cruzámo-nos com os Índios
E as suas plantas medicinais:
Pausas intermináveis
Acalentadas pela ideia
De que o nosso Destino é certo
E espera por nós…
Encontrámos outros peregrinos,
Alguns músicos em tourneés eternas
A quem dávamos boleia no auto-rádio.
E durante horas seguidas,
Atravessando o Arizona,
Ouviste um estranho passageiro
Que te sussurrou ao ouvido:
This is the end, my only friend, the end.
Eu lia um poeta que não gostava de viajar
E ela olhava abstractamente para o deserto
Recordando o australiano do Whisky Bar.
Um grito interminável surgiu do Grand Canyon;
Parámos junto do abismo e:
Tu vomitaste a solidão,
Enquanto eu fumava a solidão,
Enquanto ela beijava a solidão.

Anoiteceu.
Toca agora uma música no teu Mustang,
E os teus acordes cansados
Ecoam através do deserto silencioso.
Eu apaguei a beata com a sola da coragem,
Ela saboreou uma pastilha de redenção,
E tu vais ligar a ignição nos teus tons fortes.

De volta à Estrada.
Até à Califórnia.

sexta-feira, abril 02, 2010

quarta-feira, março 31, 2010

Porque está na moda alice no país das maravilhas





Alice (republicado)

Hoje passei por um coelho branco
E ele nem um relógio tinha.
A menina de cabelos loiros pegou-o pelos braços
Perguntou-lhe as horas do próximo comboio
E ele fixou-lhe o olhar esgazeado de um animal.
Acendeu um cigarro que os levasse para uma toca,
Um local iluminado por velas
No incenso constante de uma presumível
Partilha de nicotina.
Era um coelho e não um sapo,
Um coelho que nem as horas sabia.
Adormeceu então na periferia da linha de aviso,
Como um comprimido que vai separando
A linha dos carris e a plataforma dos vivos:
Aqueles que sabem os horários da CP.
E junto da cabeça sentiu os pontapés
Das gentes que vêm e vão,
Entrando e saindo
Da tua detestável wonderland
Comprimida num LCD.
Os outros, os invisíveis Xis e Ípsilons
Vão-se juntando a ela,
Como uma baralho de cartas
Espalhado no chão de Campanhã.
E eu, incrédula,
Vejo já uma rainha de copas
Trucidada de baixo de um vagão,
Perguntando-te ao ouvido:
"Quem foi que morreu desta vez, Alice?".
E a Alice,
Cheia de olhos prestes a chorarem
Agarra-me violentamente entre os parágrafos,
Todos eles demasiado pequenos
Para o tamanho da sua angústia,
Gritando-me:
"Enterra-me num jazigo mais largo".

Arranhamos uma parca transcendentalidade
Para o mercúrio moderno
Nos dizer que estamos erradas,
Que "o Amor já não é eterno",
Mas de propósito em cada carruagem
Sai um chapeleiro Louco:
A Alice já tem horas marcadas para hoje à noite
Com um corpo qualquer embriagado de chá.

Os vermes, os fungos,
Crescem velozmente
No ópio dos seus martinis e das minhas cervejas -
E ainda são só quatro da tarde.
E ela encosta-me como um gato
No colo das suas palavras
Para me aperceber que infelizmente
A minha cabeça continua presa ao corpo.
Oh Alice em delírio
Embebida nos semáforos e luzes nocturnas,
Serve-me mais um copo
Nos Maus Hábitos da pornografia e da bíblia.
Dá-me o mundo onde mataram as crianças
Para lhes darem um batom e saltos altos.
E de seguida vê-me a partir,
No silêncio da amargura,
Por saber que tenho corpo:
Mas não sei andar

Nem foder
Como se faz no canal 18.

domingo, março 21, 2010

O meu amigo está de baixa permanente,
Caiu a ponte
E os mortos ficaram por contar.
De baixo das trincheiras um soldado
Masturba a solidão enquanto
Trinca quatro fatias de esquecimento.
Tenho um amigo que morreu
Por causa da loucura,
A minha casa está prestes a ruir.
E o meu amigo vive lá.
O seu corpo dá voltas às paredes
Como se existissem verdades absolutas.
Ele ainda não escolheu
De que lado do limbo vai viver.
Calha às vezes encontrá-lo a beber
Esta mistela de whisky sujo
Diz-me sempre o mesmo:
As noticias diárias.
Vai acontecendo na cidade os estúpidos
Voltarem a correr a maratona
E eu fiquei do lado de fora,
Perdi as chaves dos sonhos.
O soldado volta
Em estado permanente de tusa,
Girando a pila e as armas
Á volta do caixão do meu amigo.
Digo-lhe que já me chega a catatónia,
Meto um Risperdal à boca
Limpando do estômago
Esperma e balas.
Mas a guerra estala
E o meu amigo continua morto.
De resto,
Só mudam as noticias.

sábado, fevereiro 20, 2010

Consomem-te as notas divagadas pelo espírito,
Incandesce aos poucos uma leve condensação
Em gotícula de paranóia
Bebidas amargamente pela minha morte.
Vai-te sabendo bem o meu cadáver,
A cheirar a decomposição do medo
Gostavas tu de comer as larvas
Espalhadas sobre o silêncio
Mestria corporal de imperfeições
Suscitadas ao mínimo desamor.
Vais sabendo tu do meu suicídio lento
Nessa tua ácida solução de alheamento
Apetecia-te foder-me
Mas hoje devolvo-te mil sorrisos
Trocas directas de ofensas;
Mal sabes que o orgulho é a maior ferida que te posso provocar.
Mas hoje sou mil fechaduras
E o meu corpo grita as saliências
Do tempo que ainda não passou.
Porque o amor é mais do que um jogo
Proferido em palavras sujas de desinteresse
Arranhando-me a maldade inerte
Na tua falsa sedução audaciosa.
Porque o que não sabes
É que sou um monstro bem maior que tu.
E a fealdade é-me mais natural
Que todas as mentiras que um homem consegue dizer.
Consome-me então no teu medo,
Jamais recearei parecer-me contigo.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Ela tem a melancolia instaurada no olhar,
Dizem-lhe as avós, praticamente desde o nascimento.
Gostava de se abrilhantar
Pousada perfidamente nos braços de alguém
Como se o mundo fosse um par de pernas
E a alma se deslocasse nas mãos.
E de todas as verdades que poderia almejar
Foi a única que guardou no ventre,
Lugar onde onde nada se retém,
Parindo o dia-a-dia em homens
Sôfregos de inusitadas estórias
Esquivas de quem se esqueceu
A linha que separa
Prática e teoria.

Grta-lhe o corpo
Como se vivesse alguém lá dentro
Restava-lhe saber o afinal de contas
Ao sofrer de psicose dos pontos finais.
Mas cura vive da doença
E a lucidez é uma remédio imprestável
Para tudo o que doa
Sem razão de doer.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

A cadeira, como aquela que Van Gogh pintou

A cadeira continua lá, imóvel e fria. A ela não lhe interessa a subjectividade própria dos homens. Nem lhe interessa quantos cus se sentam em cima dela. Obedece apenas a uma estrita lei da física. A massa apoiada não pode ultrapassar determinado peso. Sob pena de uma cadeira deixar de ser uma cadeira. Um dia vi um suicídio em massa de cadeiras. Devia ter apenas seis anos quando vi uma bancada de cinema cair por causa da tristeza da velhice. Foi assim, sem mais nem menos, caíram todas de uma só vez. Felizmente esse é um episódio que raramente se vê em tempo de vida. Geralmente as cadeiras não têm vontade própria, nem perante a injustiça. Como aquelas cadeiras em que se sentaram os judeus todos para serem fuzilados de uma só vez. As cadeiras são muito egoístas, também, coitadas, falta-lhes vista. Se tivéssemos aprendido a pôr olhos nas cadeiras talvez elas se pudessem revoltar. No meu caso porém, a minha cadeira era uma daquelas de anfiteatro. Com uns rasgões na pele que dão logo para perceber a sua loucura. Nem me apercebi que a tinha magoado ao sentar-me, mal delas que nunca se habituam ao sofrimento. Mas também aguentam-no conformadas. Numa eterna sofreguidão de se dizerem a si próprias quando um dia corre bem ou mal. Até entre elas próprias conversam, “Hoje foi bom, nem houve ninguém que se descuidasse para cima de mim”. Outras resmungam com a velhice. As mais novas sentem medo, mas regozijam-se por serem cadeiras e não calças. “As calças passam muito mais do que nós”. A minha cadeira em concreto não solta nem ai, nem ui. É uma cadeira conformista, Doutorada em estofos de pele. E vive eternamente de peito aberto por causa de tal condecoração. Vale-lhe o rasgão e cus bem sentados. Á parte disso é uma cadeira imóvel e fria.
- Sente-se que eu ainda não dei a oral por terminada.
Às vezes a maior dificuldade é mesmo distinguir cadeiras e humanos.