quarta-feira, dezembro 23, 2009

#1



Olha as minhas pontas de cabelo queimadas. Acabo sempre da mesma maneira, com uns últimos cigarros no bolso do casaco e mais uns quantos objectos perdidos. É so cabelo, não te preocupes, volta a crescer. Entro em qualquer sala sem pensar nisso, fica-te bem o cabelo assim. Só não me ficam bem as angústias e o dedo indicador, sujo de nicotina, a passar sobre as gengivas. Aproveito os restos de tudo, como um drogado. Mas não me conformo com isso. Acabo sempre por não amar tudo o que devia, e os últimos cigarros, nem os fumo. Mas ao menos Amo. O meu cabelo que o diga.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Baloiçar







Deixa-me ficar,
Nas entrelinhas dos livros que me custam estudar,
Sentada neste mesmo lugar
A ouvir o paladar do chá preto,
Da tua boca a mastigar,
Com um par de olhos a seguirem-me;
Tudo sem conta, peso e medida.

Mas não partas boca,
A desfazerem os frutos maduros;
Tardes a caírem junto ao mar
Como água ao canto dos lábios.

No silêncio do fumo
Rima-me em ar;
Faz-nos de conta como os cigarros
Nos finais de tarde mal dormidos
E liberdades equivocas.

Deixa-me ficar;
Voar é estar aqui.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Ridículo

Amanhã de manhã vai fazer uma chuva das caraças no metro. Vou vestir o meu habitual vestido às bolinhas brancas e levar o guarda-chuva. Dentro da carruagem todos usam o mesmo vestido que eu, todos levam guarda-chuva. Acendo um cigarro e peço desculpa pelo incómodo. Ninguém se incomodou, como sempre, a mesma indiferença de todos os dias. Lá fora faz um sol danado. O guarda-chuva contínua aberto, a minha pele aguenta bem os escaldões, mas já me dá preguiça de abrir e fechar. Abrir e fechar as portas dos corredores. Afinal de contas também chove dentro dos edifícios. Entrei dentro do metro com o guarda-chuva aceso, perdão, aberto, aberto, digo a mim mesma enquanto procuro um isqueiro para fumar um cigarro cá dentro. Deixa-me fumar um cigarro dentro dos seus sapatos. Talvez lhe aqueça os pés. Mas chover, só chove nas pessoas. Deixe-me abrir o guarda-chuva dentro si. Já estão mais molhados os meus pés de diálogos tristes que passeios estão queimados pelas minhas beatas. E são as suas passadas a abrir e fechar portas que congelam as falas. Por muito que quisesse ninguém se incomoda com as suas pestanas a abrirem e a fecharem. E mesmo assim chovem pestanas suas no metro. O meu cigarro ora aceso, ora apagado, a queimar-lhe a boca em atenções. O sol lá fora são só as minhas bolinhas brancas e um par de olhos que não param quietos. E as pessoas serão a indiferença. E o metro tem todas as estações em que decidiu não parar. As portas, comportas, os corredores, as minhas tentativas são vãs ao atravessar a realidade. Ridículo ficou o semi-diálogo e a minha forma desajeitada de não saber viver. Na verdade era só para isso que pedia ajuda. Ridículo seria não abrir o guarda-chuva quando chove.