quinta-feira, novembro 26, 2009

Sushi de Fusão








Duas peças de sushi de fusão
E um sinal na tua face.
Esforcei-me para não comer arroz nem peixe,
Só molho de soja embebido em comida.
Nunca gostei de coisas estranhas,
Nem de pessoas de outras etnias.
Muito menos de gente vulgar:
Aquele tipo, esquisito, que não entende
O porquê de um poema sobre
Peixe cru.
Chamemos-lhe - ao peixe -
O morto sem tablóide.
Só arroz japonês
E a tua face com um sinal escancarado
De aborrecimento, inutilidades como a soja,
Com carradas e carradas de simpatia.
Eu bem que fiz um esforço,
Mas não gosto de fusões,
Nem literatura de casa de banho.
Só sushi.
Sushi, de preferência sem sexo
Ou sequer amor, à mistura.
Da próxima nem me fales do Homem
Nem do tablóide que matou a mulher à facada.
Tudo bem, aceito o sushi.
Mas sem sexo depois.
Nunca gostei de fusões,
Nem de gente burra.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Fragmentos

Ele: Já reparei que escreves muito sobre a solidão...
Eu: É isso e esperma.

sábado, novembro 21, 2009

O Homem de Direito

Caso prático cardinal seiscentos e dois mil e seis.

Recomeça o instituto de apoio à vítima jurídica. Artigo número trezentos e quarenta e cinco. Página 21. Doutrina dos que não se queixam, dos que se esqueceram. Doutrinários mestrandos em silêncio. Óbvios doutores da ineficácia do ordenamento. Falo da solidão codificada, em três volumes, comentada e anotada pelo Homem de Direito. Os botões de punho a condizer com o critério da territorialidade, divisão profunda entre a camisa e a pele. Entre as palavras escritas e as palavras significadas. Gravata azul, umas vezes mais escura que outras, dependendo dos ministérios, das assembleias ou seminários. Dependendo dos outros, nunca de si – Art. menos um da Constituição dos Politicamente Correctos. Ou seria Processual Social? Não interessa, mais vale guardar as dúvidas e aplicar o critério geral de solução: não penses muito acerca do porquê. Vira à página seguinte, página 22 de autor publicista, conceituado em ócio após as sete da noite. Fazendo-se tarde para mandar chamar um par de amigos para um copo ou mais, senta-se, acende um cigarro e consulta a mais recente legislação para o amor. Marca o número daquela amiga, não sem antes ter a certeza que não está casada, vive em comunhão de facto ou é menor. Também não se aceitam vagabundas profissionais, visto constituir um desuso o amor pago, dizem os das convenções para os Direitos Humanos. Costuma ela chegar já perto das onze da noite. Depois das leituras trimestrais do correio da Ordem dos Advogados, do jornal das oito, do jantar pré-aquecido em forno a lenha, re-aquecido em forno a gás. Chega ela deslumbrante, a sonhar com uma casa nas margens do rio Douro e três pequenos a correrem para os braços do perfilhador. Mas ele nem a gravata muda para a receber. Meia azul, meia negra, hoje foi dia de pareceres. “Parece-me, Doutor, que hoje vamos passar um bom bocado”. Serve-lhe então um copo de vinho, com o sexo já semi-desabotoado na teoria das vontades humanas. O Homem de Direito não tira o fato para foder. Ainda bem. Ela quer um marido apresentável e ele uma puta legal. O orgasmo do Homem de Direito é pensado e automático, de acordo com a Lei da Assembleia dos Humanos. E o esperma é quente como o de qualquer outro homem. Mas só sonha quando dorme. Na verdade, como qualquer outro homem? E esta dedicação será amor ou solidão?

Quid Juris?

sexta-feira, novembro 20, 2009

Santa Apolónia Arrotava Magotes de Gente




E dois copos de whisky já semi-entornados no corpo,
Com os tons quentes do Verão, espalhados na parede do quarto
Já depois de lhe ter dito que não se despisse,
Já depois de lhe ter dito que o corpo (só) não lhe interessava.
Era madrugada e dois copos de whisky já semi-entornados no corpo,
Esta música e conversas aos pares...
E tanto, ou tão pouco, para adormecer-lhe abraçada. Sem roupa.

Carta a Charles Manson



Um quarto perdido numa cidade qualquer,
14 de Maio de 2009.
Hoje voltei a cruzar-me na rua com um cadáver.
Não tive a mínima intenção de lhe acenar
Um bom dia que seja,
E os seus olhos brilhavam através
Do lixo remexido.
As suas mãos eram as mesmas
Que as dos rastejantes brancos
Em quilos e quilos de banana apodrecida;
Sobras imundas de fruta fálica
E esperma desperdiçado
Em preservativos que se acumulam
À porta de condomínios privados.
Anda como um cão,
Farejando o cio da pobreza
Largado em contentores de take-away.
Nas veias corre o fumo
De filas intermináveis de escapes de automóveis;
Coágulos brancos
De celulite e gordura animal
Iludidos na pigmentação rouge
Dos holofotes da tua
Sharon Tate esteticamente correcta.

O cadáver atravessou uma avenida inteira,
Um campo de concentração democrático,
Para me cumprimentar.
Tinha o hálito putrefacto da humanidade
Disfarçado no aroma do whiskey
Que bebi a mais na noite passada.
Acendeu-me mais um cigarro,
Que me soube ao travo da gasolina
De um Zippo descaracterizado,
E perguntou-me pela vida.
A sua voz era a inconfundível euforia
Dos anúncios publicitários
E dos pregadores de Iavé,
Ocultando o grito imensurável
Dos bisturis na vagina
Para que se dê à luz mais um monte de carne
Directa para o matadouro.
Ocasionalmente tossia aquele sangue,
Sujando o meu imaculado vestido branco,
Aludindo à minha virgindade perdida
Na pornografia dos bons costumes.
Por certo não foste tu que o mataste.
As tuas degoladas na Sharon,
Tiveram, apenas,
O defeito de serem bem-intencionadas.

Não lhe cheguei a falar da vida –
Guardei esse tema para ti.
Contei-lhe que estamos
No tempo da fruta madura.
Falei-lhe da Haute Couture
Patrocinada por uma cultura
De orientais à beira do suicídio.
E ele abria a boca para se rir
Exibindo os dentes negros
Quentes de sujidade e
Homens calvos a lamberem o asfalto.
O mesmo asfalto das ratazanas,
Da sostrice da corrupção,
Agarrando à língua
Frases feitas em rigor mortis.
Acabei por lhe falar da Helter Skelter
E ele olhou para o sol.
Levantou-se enquanto expressava
Preferência pela Can’t Buy Me Love,
Beijando-me a boca para se despedir.
Ficou no ar o cheiro dos perfumes rançosos
E do sexo praticado nos esgotos.
Na boca ficara, apenas,
O gosto do desalento.

Sei que ouves da tua jaula
O barulho dos canos,
A pingarem a menstruação dos sonhos,
Diria que são saudades da família.
Não te pergunto pelos parentes
Nesta longa carta,
Não valerá a pena.
Kasabian anda por aí,
Não está arrependida,
Mas ainda se masturba a pensar em ti.
Comigo tudo na mesma,
Como a lesma do cadáver.

De resto o plano corre como combinado.

Saudades,

L.

Talvez

Meia-noite parada. Resíduos de frases-feitas, com alguns comentários sensíveis a meio. As tuas mãos seguram os meus pulsos, notas entre os dedos as saliências do passado. Maus tempo, digo-te sem medo. É natural, quantas vezes não passamos pelo medo? Mas elas não te assustam, consomem-te, dão-te vida, fazem-te respirar. Abrir os teus lábios em profundas lâminas de presente, para me dizeres que o amor é mais do que um sim. O amor é um talvez errante pela vida fora. Um talvez eterno prescrito em cima do joelho. O teu joelho apoiado na erva, com os meus ombros a caírem contra o tronco da vida. Deixa-me então vaguear neste jardim de telvezes, e de amanhãs logo se vê. Amanhã logo se vê, meu amor.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Morte Antecipada

Aquela música tua, Judite.

Diz-me quantas vezes disseste adeus
Que eu te direi quantas vezes disseste amo-te
O meu maior presente é o teu conjunto de ideias desorganizadas
Os teus tons mascarados de barroquismos simbólicos,
Desfeitos em camas nuas, nos teus sinos que batem feios
à cabeceira da morte.
Diz-me quantas vezes disseste adeus,
Simpaticamente errando nas intenções
Onde jazem flores, de volta ao nosso caixão,
De volta ao pó, Nossas ossadas feitas

Na existência do silêncio
E na minha falta de palavras apenas a vontade de falar,
Quem seremos nós, agora, na missa que esquecemos de rezar.
Se uma coisa é o incenso cansado de se evaporar nas catedrais
E outra é os vagos passeios na avenida,
Diz-me quantas vezes fomos então
Mais que o cuspo a cair da tua boca para a minha,
Se nem a voz nos ilude das estradas que não fizemos,
Nem o teu corpo é sagrado.