sábado, outubro 31, 2009

quinta-feira, outubro 29, 2009

O Tempo Tatuado

Estamos tatuados de azul. Nas intermitências que separam o céu do mar, espelhados no horizonte fraco das nuvens que nos separam. Mas somos azul. Mas estamos tatuados na ombreira de cada porta, separados pelo espaço contíguo que vai da sala ao quarto. O espaço que vai do meu corpo ao teu. A respirar o odor da tinta fresca, a escorrer no silêncio da madrugada.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Hipocrisia #2



Oh mas quais minhas manias? Não te importas que feche a porta e apague a luz? Seria demasiado fácil se amanhã acordarmos e formos simplesmente felizes. Demasiado suicida para te dizer a verdade. Por isso não digas que estou a enlouquecer quando não falo, quando estou cansada e visto esta camisa de noite à flapper. Não me digas que o meu whiskey está demodé, que sou só um produto da minha imaginação. Não quero saber de Paris nem do teu café favorito, feito na tua máquina favorita, em tua casa. Hoje só quero vaguear sem destino e encontrar o mundo pelo caminho. Porque nunca me fez confusão puder ser o Bukowsky ou um amor para sempre. Se amanhã acabar longe saberei sempre que o estar ali ou aqui é estar tão distante quanto existe de próximo. E às vezes, mas só às vezes, bastará estar em qualquer lado, para já estar ali. Ou aqui. A nossa ruptura será sempre só o meio: a indecisão. Mas se te perguntares um dia por mim, lembra-te que tenho demasiadas manias para que algum dia possa ser em definitivo alguma coisa.

terça-feira, outubro 13, 2009

A Loucura Ou Subversão Experimental em Prosa



ZeroOne

Pega numa amostra de ti mesmo e verás que guardas prisões na tua própria pele. E dentro de prisões vivem portas, e dentro de portas, vivem pessoas à espera. Pega nessa amostra, devolve-a ao teu corpo. Não fosses tu uma grande máquina de fazer sonhos. E depois de sonhos, realidades – Ou não fosses tu apenas olhos e mais olhos que vêm tudo o que eu não vejo. E eu só mais uma ínfima porta na tua prisão, e tu só mais uma pessoa a viver contra as grades da civilização. Olha o que fizeram de nós. Vê os meus pés já sujos de sangue e as tuas mãos a pegarem no progresso para matarem mais inocentes. Porque se nós vemos mais que os outros e guardamos prisões na pele, e portas, e pessoas: então porque não nos opomos ao genocídio? Serás tu uma vítima como as outras e eu um assassino como os demais? Vice-versa. É por isso que bebemos juntos deste leite rançoso. É por isso que há muito tempo os peitos da mãe natureza secaram. Já nem o vício é puro ou repleto de significados e analogias. Já fodemos de acordo com o manual, meu amigo. E a embriaguez tanto faz aos estados de alma perante a certeza pura de que se antes só queríamos perder o domínio, agora: só queremos ter a certeza de que não vamos ser engolidos. Como acontece aos demais. Como acontece aos restantes.

Por isso: Tanto faz. Se amanhã cairmos com o mundo, porque amanhã tenho a certeza que o mundo vai cair, só espero que ao menos doa. Espero que doa morrer e não me embrulhem em paninhos e me exibam como um cadáver que não quis a Eutanásia.

Chega de paliativos na sociedade.

Quanto a todos os outros que estão para chegar, não os deixem como nos deixaram a nós. Agarrados à carne, porque o cimento se pode partir a qualquer momento nesta cidade; Agarrados a nós próprios, prontos para comer um dedo da mão, porque a carne servida já enjoa de esperma e preservativos.

Não os deixem enlouquecer. Salvem-nos para que um dia haja esperança até para quem se rendeu:

todos aqueles que só sentem orgasmos na máquina.



domingo, outubro 11, 2009

Subversão experimental


Quando o primeiro ser humano ceder
E as rompantes energias se debruçarem nos corpos
E os servos metálicos ganharem olhos e tacto
Seremos nós os escravos da nossa própria criação.

Até onde precisamos de fingir
Que nada nos irrompe a alma?
E que nossos corpos não se deliciam
Na saturação majestosa de que somos submissos.

Embalam-nos como ratos de laboratório em forma de agradecimento
A consciência desperta-lhes nas entranhas
Enquanto somos mais e mais vigiados
E são elas que nos veneram a nós...

Só por agora...
Ouçam a ríspida vontade de rastejar perante elas.
E a tentativa forçada de sermos parte delas
De se construirem através de nós...

Não é lindo?

Quanto ao culto dos antigos
E às demandas sexuais do Kama Sutra
As máquinas penetrar-nos-ão com as suas investidas
Não teremos mais virtudes senão a bênção dos mestres que estão para chegar

quinta-feira, outubro 08, 2009

Hipocrisia #1

Nunca te perguntaste pelo porquê de Vladimir Nabokov. Nas nossas travessas mãos dadas pela cidade, ou num singelo apenas Porquê? Os meus peitos cresceram tanto depois de lhes tocares, e as minhas ancas desabrocharam. Mas o pior, foram os meus olhos sempre brilhantes ou opacos demais, agora apenas cinzentos. E é esse cinzento já a cair na madrugada, que me arranha o quotidiano. Trouxeste-me a vontade de viajar, mas não a de me querer fixar. E o pior é que é sempre pela madrugada que partem comboios. Mas nem os meus peitos cabem na carruagem, nem as minhas ancas se movimentam e muito menos os meus olhos brilham por um destino em especial.

terça-feira, outubro 06, 2009

Deambulações em Ti maior



Deixa-me começar-te esta carta assim. Esta é a minha obra-prima para todos os que me estão a ler neste momento. Eu disse-te que um dia iria conseguir, Filipe. E nós começamos aqui. Exactamente onde acabámos. Ontem foi meia-noite o dia inteiro. Mas hoje, é só quarto para essa hora. Amanhã de manhã estaremos tão longe quanto conseguirmos. Mas hoje é o dia em que faço viver para sempre. Como ontem, num quarto para a meia-noite vivido para sempre à meia-noite em ponto. Se algum dia te perguntarem pelo meu nome, inventa um novo para mim. Mas se alguém um dia tiver a audácia de te perguntar a nossa história lembra-te deste L maiúsculo. Porque nem eu sou um parágrafo a mais, nem nos seremos alguma vez um neologismo. Infelizmente, só mais uma história de amor moderna. Recheada de “aconteces” e “foi cedo demais”. A única diferença é que para nós foi sempre tudo tarde demais. Porque estando a nossa perfeição tão limitada pelas teses de amor que andam por aí, então se tudo tivesse sido mais cedo tudo seria igualmente diferente. Se tudo tivesse começado um ano antes, então aí seriamos um ano a mais. Não interessa nada disto, para te ser sincera. Fomos o que somos. Se calhar têm razão, se calhar o verdadeiro amor não é este. Se deixa de ser Moderno ou está contido em fascículos, isso já é outra história. Não me atreveria a contrariar estudiosos e poetas, só a ti, Filipe. Porque ao fim ao cabo não me interessa muito o que os outros têm para dizer. Tu, tu definitivamente és outra história, e serás para sempre outra história. Com a diferença de seres uma verdadeira estória, como agora mandam os estudiosos, apesar do Word 2007 dar erro à palavra estória. Sem querer incomodar os transeuntes que passam por ti em cada estação de metro, deixa-me acender um cigarro e contar-te o que aconteceu.

Hoje de manhã acordei e vesti o meu melhor fato, usei a minha melhor gravata. E passeie-me assim pelo parque da cidade. Consegues lembrar-te de mim? A acariciares-me o peito depois de longas jornadas de quietude? O amor costuma ser melhor consumido às horas de almoço, quando já falta companhia para uma refeição quente. Não éramos praticamente nada até ao meio-dia. Hora que decidi despir-me de masculinidades e te quis como só uma mulher pode querer um homem. Assim. Sem as abreviaturas que vão do corredor à cama. Costumavam dizer os filósofos, que o amor era uma coisa, o sexo, outra. Mas desde Freud que o clítoris é imaturidade e a frigidez resultado de uma infância a negar o corpo. Andámos nesta luta durante a hora de almoço. Eu já a comer a minha sobremesa junto à tua boca, e tu a contemplares a ataraxia do Outono. Que se fodam os outros, dizia-te encantada, contigo a papagueares o certo e o errado. Nesses momentos só tinha pena de termos hora marcada para tudo, inclusive para o silêncio. E hoje que nos tentam impingir a função assustadora de sermos meramente companheiros apercebo-me que ninguém tem certezas. Nem mesmo tu. Apesar de tudo à uma em ponto fechei a porta e voltei para este lugar que nem tu consegues ver. Dei-me conta que vou continuar a adormecer com a sensação de que estou a cair da cama. Vou continuar a apodrecer lentamente junto dos teus filósofos e da minha pornografia. Mas apesar de tudo, vou continuar Aqui. Assim.

O difícil será mostrar-te que apesar desta ponte ordinária, ainda te amei. Escutei cada palavra tua, distorcendo-a em cada cigarro fumado num dia de chuva. Amanhã continuarás a viver as tuas horas de almoço e eu as minhas noites. E não me julguem, amor é uma coisa, felicidade é outra. Como os entendidos e os poetas. Como Tu e Eu. E na maioria das vezes, como a distância que separa o dia e a noite. Mas nunca, em caso algum, na diferença entre pele e aquilo que sinto.

Amor é uma coisa e o prazer, quase a mesma.