terça-feira, agosto 25, 2009

Auto-Mutilação


Fiz uma sopa para o jantar. Descasquei algumas batatas, poucas porque dizem que engorda. E ao descascar ouvi esse aviso na minha cabeça. Estava a repetir-se como se fossem dominós a caírem de par em par. E enquanto descascava batatas tentava abafar o som dos avisos a baterem contra as paredes do crânio. Tinha uma lista mental de coisas para fazer. Menos batatas, mais abóbora porque não engorda. Quando descasquei a última batata e deitei para dentro de um tacho cheio de água lavei as mãos. Sentia um certo desconforto por ter as mãos sujas. Sempre sentira, tal como naqueles tempos em que era levada para a feira popular e no final de andar no carrossel me era oferecido um algodão doce. Lembro-me de ficar com as mãos insuportavelmente peganhentas. Acabava por caminhar com os dedos completamente abertos para não sentirem o melaço pegajoso pela mão toda. Nunca dizia nada a ninguém, não valia de nada. Também nessa altura guardava o xixi durante muito tempo, até se chegar a casa. Era sempre levada por avisos que distraidamente nunca cumpria. “Vai à casa de banho antes de sairmos”, “Não comas tanto algodão doce”, “Não comas batatas porque engorda”. Ao contrário de antes, hoje detenho-me pensativa nas vozes dos avisos. Cumpro-os à risca como se fossem ordens. Dos tempos da infância ficaram-me apenas as sensações desagradáveis do incumprimento. Olhei para a minha abóbora, ainda tinha um longo trabalho pela frente.

Dei-me conta que era a primeira vez que descascava uma abóbora. Nunca me avisaram para prestar atenção à forma como a mãe cortava a abóbora e por isso nunca me dei ao trabalho de estudar essa técnica. Ao invés ficava parada na cozinha a olhar pela janela. Nessa altura vivia num sítio diferente do que vivo hoje. Da janela conseguia-se ver uma pequena cidade na encosta da serra. Perguntava-me como seria possível os prédios estarem assim presos na encosta, sem caírem para o lado. Então aí imaginava-me eu no cimo de um desses prédios, e o chão que pisava teria a mesma forma do declive da serra. E ao contrário dos prédios, eu não me sustinha na inclinação. Se não pensava nisso, pensava noutras coisas. Só nunca me dei ao trabalho de ver a mãe a descascar uma abóbora. E agora ali estava o legume a olhar para mim. E eu para ele. Comecei por agarrar numa faca para o partir, mas o seu tecido era demasiado grosso e rijo. Peguei então noutra faca, uma maior mais afiada. O mais que consegui fazer foi vê-la a espetar-se completamente contra a abóbora. Foi com grande esforço que tirei de lá a faca. Voltei a mete-la. Era literalmente uma abóbora virgem e complicada. Comecei a irritar-me, tinha que cortar apenas um pedaço para pôr na minha sopa. A minha sopa saudável como mandam os avisos. Com um gesto já quase de raiva pus toda a força que consegui para a conseguir cortar. Consegui. Fiz o mesmo gesto do outro lado. Cortei por cima, por baixo e de um momento para o outro já estava a olhar para o meu pedaço de abóbora resplandecente. Estava um bocadinho feio, mas não importava, gostava daquele pequeno pedacinho como se fosse um filho. Era o meu pequeno pedaço de abóbora. Era a minha sopinha saudável. Era a minha vida alegre, feliz. Já estava a fazer plano para amanhã: Amanhã até vou correr junto do rio. Amanhã vou comer a sopa saudável. Amanhã serei uma pessoa nova. Hoje é o dia em que tudo muda para amanhã ser melhor. Estava tudo fácil. Agora só falta cortar a casca daquele pedaço de abóbora e Voilá!

Estudei a casca, peguei na faca e pus mãos ao trabalho. Já estava mesmo no fim da meta. Voltei a ter a mesma resistência do principio, mas desta vez a abóbora não ia levar a melhor como das primeiras vezes. Posicionei-me e fiz um corte certeiro e rápido. Deixei cair a faca ao chão. Soltei um grito agudo e olhei para a minha abóbora. Sobre ela já começavam a cair alguns pingos de sangue. Olhei para o meu pulso e sobre a pele estavam cicatrizes, e sobre as cicatrizes estava um corte novo. Porquê? Se era só uma abóbora, uma sopa saudável, um novo renascer? Porquê? Peguei no objecto de cor laranja e atirei-o contra o chão. Fiquei a olhar para o sangue de forma nostálgica. Tentei ouvir as palavras suaves dele a dizer-me: Foi só um acidente, não te preocupes. Mas não estava ninguém em casa. Ninguém estaria em casa nos próximos meses. O sol brilhava através da janela desta cozinha. Não havia montanha, só prédios a crescerem uns em cima dos outros de forma plana. Um fio de sangue correu na minha mão, senti-me suja mas não fui capaz de lavar. Tive medo de pedir para me levarem de volta a casa para fazer o que me tinha esquecido de fazer anteriormente. Detive-me a olhar para a janela. Não me senti suicida, apenas tive vontade de me teletransportar magicamente para cima de um dos prédios. E de cima poderia ver uma cidade diferente. O corte acabou por estancar por si mesmo como estancaram os nostálgicos. E eu fiz a única coisa sou boa a fazer: Imaginar. Nessa noite comi sopa sem abóbora, só com batata. Escrevi este texto de madrugada, e amanhã sei que não irei correr junto ao rio. E amanhã sei que não serei mais saudável do que sou hoje. Mas nada me impede que hoje venha a ser o dia em que tudo muda para amanhã ser melhor. Porém sei agora mais que nunca: Não vai ser fácil.

domingo, agosto 09, 2009

Confortavelmente Perdido

Amar-te seria reduzir-te:
O amor é tão insignificante entre nós
Um esboço patético do que pode a emoção
Criar em tão poético espaço ou tempo
Dum nunca eterno beijo...

Até quando vais durar?
Nesta expectativa volátil,
Que de tanto te desejar
Me consome o receio de viver mais um dia?

A ânsia vertiginosa de ser quase tocado,
Pela teu sopro a penetrar na minha boca
Que me faz arremessar o que sinto
E o universo torna-se em ti

E é aí que te respiro
Que te saboreio
Que te faço latejar de vida
Como se da morte te recompusesses...

E quando desperto o toque atinge-me
Como se balas a ferver me dilacerassem
Quando abro os olhos, tu desapareceste,
E o sonho ainda agora começou...

Por, Zeroone



A mim só me basta descobrir qual dos irmãos é que o escreveu. Já começa a ser raro um poema tocar-me como o fez este.

sábado, agosto 08, 2009

Poeta em New York



Não vou dar conta
De parágrafos.
Não quero entender versos
Feitos para serem ininteligíveis.
Quero chegar-te ao âmago,
Despir-te a camisa,
E não ouvir poesia.
Deitar o teu corpo
Para o meio do rebuliço
E fazer de conta que és mais
Do que palavras.
E sentir-te, sem descortinar
Quem és tu
E quem é uma cama.
Vou ligar a luz
E as tuas sombras serão
Mais do que o fumo
Dos cigarros e da poluição.
Ligarei o jazz
Das mulheres fáceis.
Cai-me no corpo os teus lábios
Na certeza inequívoca
De que és solitário,
Mas não poeta.

Não vou dar conta
Da música silenciosa
Nos versos mal estruturados
De milhões pássaros.
Aves soltas, livres, sem as prisões
De quantas palavras murmuradas
E escritas. Tentativas vãs
De fazer o sexo parecer amor,
De fazer a solidão parecer estilo.

Desligo a luz e solto o saxofone.

Pelas pernas já me caiem os interiores,
Minhas facilidades cheias de erros ortográficos,
E saliva seca de não nos descrever.
Não interessa querido, Não tarda
Chegará o amanhecer para nos sucumbir,
Para nos lembrar
Que somos só fumo dos meus cigarros;

E as tuas palavras decadentes
Mortas só por nos recordar.

Falsas Memórias




Amanhã de manhã vou acordar com o som do despertador que acabei de pôr para as sete e trinta. Vou lavar dos dentes, tomar banho, vestir-me. Vou sair de casa e apanhar o 728 para o meu trabalho. Boa Noite. Até Amanhã.

Nunca vi o sol a nascer. Quando acordo ele já nasceu e quando me deito ele já morreu. Viro-me para o outro lado da cama, o despertador pisca as seis da manhã. Não preguei olho a noite inteira. Esperei por um telefonema, uma mensagem, qualquer coisa. Mas nada. Nada que fizesse som para além de alguns vagos carros a passearem-se já na madrugada, a despirem as estradas de alcatrão frias, a fazerem cair as gotas de orvalho ao passarem de raspão pelas ramagens. Árvores dispostas a fio pela rua onde se situa o meu prédio. Abro os olhos e fixo o tecto branco. O Sol não vai nascer.

Saio de casa com um cigarro pendurado nos lábios. Saio antes da hora combinada, antes de ouvir o barulho dos pássaros a piarem de fome. Saio sem banho e sem autocarro que possa apanhar. Sai para ver quem está lá fora e se esqueceu de telefonar, mandar uma mensagem, qualquer coisa. O Sol não vai nascer. E quem quer que estivesse à minha espera já esta cansado de esperar. Ao lado das árvores , do orvalho, dos carros, da noite; mesmo no centro da rua, ninguém está lá. Olho para os telhados, ansioso por vê-la saltar de um prédio para o outro. Como se fosse um fugitivo de Alcatraz. Infelizmente não tive tempo de vê-la fugir.

Caminho rua a cima. O Senhor Alexandrino está dentro do café a receber pão quente. Custa-lhe segurar o pão com as mãos, arqueia as costas e mete o pesado saco aos ombros. Por momentos ia jurar, ia jurar que vi a tua mão. As tuas unhas pintadas de vermelho. A tua mão mais branca do que o costume, mas afinal era apenas uma vianinha caída do saco. Ele pega na tua mão e dá-lhe uma trinca. Ainda estás quente e os teus ossos desfazem-se entre os dentes dele. Olho para os telhados e para a rua só para me certificar que não és tu. Não podes ser tu. Ele trinca o pão quente, acabado de fazer. Jamais poderias ter o teu cadáver aqui por perto.

Deambulo pelo bairro e à minha frente vai o camião do lixo. Vai a exalar o cheiro dos restos, do desperdício, do inútil. Um homem da câmara municipal agarra num caixote grande. Vai algo negro no meio do lixo. Será a tua mala escondendo a carteira, o baton, o telemóvel. Terias perdido a tua mala algures na vizinhança, esperaste por mim horas, e nem uma mensagem, nem um telefonema. Seria isso. Seria essa a causa do nada, de nada. Como um louco transponho-me em frente ao camião do lixo, quase acabava atropelado. “Oh homem saia da frente”. Não, preciso de remexer os restos dos outros, as suas inutilidades, não vá o acaso dar-se e atiraram-te para dentro do desnecessário. Não vá dar o acaso de tu teres aparecido, e simplesmente teres sido perdida e arremessada contra o fedor. Mergulho na merda para te encontrar, mandando-te uma sms. Onde estás? Não há resposta, nem o saco preto era a tua mala, nem o teu telemóvel se perdeu. Pelo menos não se perdeu aqui.

O sol não vai nascer.

Ouço uma sirene do outro lado da vizinhança. Serias tu a morrer dentro de uma ambulância. Seria tu, louca à minha procura, já com um casaco de forças metido corpo a dentro. De certeza que sim. Não haveria motivos para não apareceres, nem para o sol deixar de nascer. Não haveriam motivos para não tentares fugir, para não te tentarem matar, para não te quererem deitar fora. Não haveria motivos se quer para te mandar uma mensagem. Onde estás? Do lado de lá o teu telefone apita como uma sirene, escondendo os gritos da minha angústia. A manhã seguinte não chega. Não há motivos para o sol nascer.

Deste lado toca o despertador. São 7.30 e o sol nasceu. Levanto-me, tomo banho, visto-me e saio cá para fora. O senhor Alexandrino prepara-me agora umas torradas quentes com um galão. Abro o jornal. “Mulher é brutalmente assassinada no Bairro”. Lá fora passa o camião do lixo. Não pode ser. Trinco o pão. Sabe-me a manteiga. Trinco novamente o pão à procura do sabor do sangue. Sabe-me agora a farinha com manteiga. “Senhor Alexandrino, o camião já não passa durante a noite?”. E ele vai respondendo enquanto serve cafés. Esta malta dos lixeiros anda em greve, anda em greve. Olho para o telemóvel. Nada.

Não haveria motivos para o sol nascer, mas nasceu.
Não haveria motivos para me responderes, nem o fizeste.

Apanho o 728. Sento-me na secretária de onde exerço o meu emprego. Conforma-te é o que me vem à cabeça vezes e vezes sem conta. E sem querer dou por mim a telefonar para a morgue.

Ela está aí?

sexta-feira, agosto 07, 2009

896 menos Insónia =

Não me chamarias sentinela
Se as minhas asas não voassem
Se os meus lamentos não ouvisses
Se as minhas mãos, descontruidas dos braços,
Não te servissem assim:
Efemeramente.
Deixem-me fugir,
Deixem-me escapar do corpo
E ser mais do que a respiração sibilante
Dos meus pais.
Quero ouvir os segredos
Sussurrados à porta do armário.
Parar, e ter os lençóis agarrados à boca.
Parar, e esperar pelo amanhecer,
A luminosidade das janelas.
Parar, e receber o toque de volta
À sala de aula.
Esperar e no final não ter que
Realmente Ouvir Tic-Tac.
Dling Dlong
Nas missas de domingo,
Txin Txin
Nos copos da sexta-feira.
Nunca, nunca mais ter de adormecer,
Pensar no tecto,
E ver um anjo da guarda
A acertar o despertador
A lavar os dentes,
A ajeitar a almofada,
Sem que no final sinta vontade de
Morrer.
Não, não ver nunca mais
O pequeno-almoço posto
Ás quatro da tarde de sábado.
Parar.
Parar, fechar, arrecadar,
Desligar o motor
E não sentir os carros lá fora.
Agarrar os dentes aos lençóis
E Silenciar o medo:
E as folhagens da madrugada.
Ver, reparar
Acender as luzes a sépia
E fumar um cigarro com quem
Fala através dos corredores.
Parar
E Viver outra vez,
O que se vive apenas
Fora dos Cilícios do tempo.
Esperar, viver,
E no final perder 8 horas de vida.
Oito vezes sete,
Cinquenta e seis vezes quatro,
224 vezes 12,
896 horas felizes de morte
Por ano.

quinta-feira, agosto 06, 2009