quarta-feira, dezembro 23, 2009

#1



Olha as minhas pontas de cabelo queimadas. Acabo sempre da mesma maneira, com uns últimos cigarros no bolso do casaco e mais uns quantos objectos perdidos. É so cabelo, não te preocupes, volta a crescer. Entro em qualquer sala sem pensar nisso, fica-te bem o cabelo assim. Só não me ficam bem as angústias e o dedo indicador, sujo de nicotina, a passar sobre as gengivas. Aproveito os restos de tudo, como um drogado. Mas não me conformo com isso. Acabo sempre por não amar tudo o que devia, e os últimos cigarros, nem os fumo. Mas ao menos Amo. O meu cabelo que o diga.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Baloiçar







Deixa-me ficar,
Nas entrelinhas dos livros que me custam estudar,
Sentada neste mesmo lugar
A ouvir o paladar do chá preto,
Da tua boca a mastigar,
Com um par de olhos a seguirem-me;
Tudo sem conta, peso e medida.

Mas não partas boca,
A desfazerem os frutos maduros;
Tardes a caírem junto ao mar
Como água ao canto dos lábios.

No silêncio do fumo
Rima-me em ar;
Faz-nos de conta como os cigarros
Nos finais de tarde mal dormidos
E liberdades equivocas.

Deixa-me ficar;
Voar é estar aqui.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Ridículo

Amanhã de manhã vai fazer uma chuva das caraças no metro. Vou vestir o meu habitual vestido às bolinhas brancas e levar o guarda-chuva. Dentro da carruagem todos usam o mesmo vestido que eu, todos levam guarda-chuva. Acendo um cigarro e peço desculpa pelo incómodo. Ninguém se incomodou, como sempre, a mesma indiferença de todos os dias. Lá fora faz um sol danado. O guarda-chuva contínua aberto, a minha pele aguenta bem os escaldões, mas já me dá preguiça de abrir e fechar. Abrir e fechar as portas dos corredores. Afinal de contas também chove dentro dos edifícios. Entrei dentro do metro com o guarda-chuva aceso, perdão, aberto, aberto, digo a mim mesma enquanto procuro um isqueiro para fumar um cigarro cá dentro. Deixa-me fumar um cigarro dentro dos seus sapatos. Talvez lhe aqueça os pés. Mas chover, só chove nas pessoas. Deixe-me abrir o guarda-chuva dentro si. Já estão mais molhados os meus pés de diálogos tristes que passeios estão queimados pelas minhas beatas. E são as suas passadas a abrir e fechar portas que congelam as falas. Por muito que quisesse ninguém se incomoda com as suas pestanas a abrirem e a fecharem. E mesmo assim chovem pestanas suas no metro. O meu cigarro ora aceso, ora apagado, a queimar-lhe a boca em atenções. O sol lá fora são só as minhas bolinhas brancas e um par de olhos que não param quietos. E as pessoas serão a indiferença. E o metro tem todas as estações em que decidiu não parar. As portas, comportas, os corredores, as minhas tentativas são vãs ao atravessar a realidade. Ridículo ficou o semi-diálogo e a minha forma desajeitada de não saber viver. Na verdade era só para isso que pedia ajuda. Ridículo seria não abrir o guarda-chuva quando chove.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Sushi de Fusão








Duas peças de sushi de fusão
E um sinal na tua face.
Esforcei-me para não comer arroz nem peixe,
Só molho de soja embebido em comida.
Nunca gostei de coisas estranhas,
Nem de pessoas de outras etnias.
Muito menos de gente vulgar:
Aquele tipo, esquisito, que não entende
O porquê de um poema sobre
Peixe cru.
Chamemos-lhe - ao peixe -
O morto sem tablóide.
Só arroz japonês
E a tua face com um sinal escancarado
De aborrecimento, inutilidades como a soja,
Com carradas e carradas de simpatia.
Eu bem que fiz um esforço,
Mas não gosto de fusões,
Nem literatura de casa de banho.
Só sushi.
Sushi, de preferência sem sexo
Ou sequer amor, à mistura.
Da próxima nem me fales do Homem
Nem do tablóide que matou a mulher à facada.
Tudo bem, aceito o sushi.
Mas sem sexo depois.
Nunca gostei de fusões,
Nem de gente burra.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Fragmentos

Ele: Já reparei que escreves muito sobre a solidão...
Eu: É isso e esperma.

sábado, novembro 21, 2009

O Homem de Direito

Caso prático cardinal seiscentos e dois mil e seis.

Recomeça o instituto de apoio à vítima jurídica. Artigo número trezentos e quarenta e cinco. Página 21. Doutrina dos que não se queixam, dos que se esqueceram. Doutrinários mestrandos em silêncio. Óbvios doutores da ineficácia do ordenamento. Falo da solidão codificada, em três volumes, comentada e anotada pelo Homem de Direito. Os botões de punho a condizer com o critério da territorialidade, divisão profunda entre a camisa e a pele. Entre as palavras escritas e as palavras significadas. Gravata azul, umas vezes mais escura que outras, dependendo dos ministérios, das assembleias ou seminários. Dependendo dos outros, nunca de si – Art. menos um da Constituição dos Politicamente Correctos. Ou seria Processual Social? Não interessa, mais vale guardar as dúvidas e aplicar o critério geral de solução: não penses muito acerca do porquê. Vira à página seguinte, página 22 de autor publicista, conceituado em ócio após as sete da noite. Fazendo-se tarde para mandar chamar um par de amigos para um copo ou mais, senta-se, acende um cigarro e consulta a mais recente legislação para o amor. Marca o número daquela amiga, não sem antes ter a certeza que não está casada, vive em comunhão de facto ou é menor. Também não se aceitam vagabundas profissionais, visto constituir um desuso o amor pago, dizem os das convenções para os Direitos Humanos. Costuma ela chegar já perto das onze da noite. Depois das leituras trimestrais do correio da Ordem dos Advogados, do jornal das oito, do jantar pré-aquecido em forno a lenha, re-aquecido em forno a gás. Chega ela deslumbrante, a sonhar com uma casa nas margens do rio Douro e três pequenos a correrem para os braços do perfilhador. Mas ele nem a gravata muda para a receber. Meia azul, meia negra, hoje foi dia de pareceres. “Parece-me, Doutor, que hoje vamos passar um bom bocado”. Serve-lhe então um copo de vinho, com o sexo já semi-desabotoado na teoria das vontades humanas. O Homem de Direito não tira o fato para foder. Ainda bem. Ela quer um marido apresentável e ele uma puta legal. O orgasmo do Homem de Direito é pensado e automático, de acordo com a Lei da Assembleia dos Humanos. E o esperma é quente como o de qualquer outro homem. Mas só sonha quando dorme. Na verdade, como qualquer outro homem? E esta dedicação será amor ou solidão?

Quid Juris?

sexta-feira, novembro 20, 2009

Santa Apolónia Arrotava Magotes de Gente




E dois copos de whisky já semi-entornados no corpo,
Com os tons quentes do Verão, espalhados na parede do quarto
Já depois de lhe ter dito que não se despisse,
Já depois de lhe ter dito que o corpo (só) não lhe interessava.
Era madrugada e dois copos de whisky já semi-entornados no corpo,
Esta música e conversas aos pares...
E tanto, ou tão pouco, para adormecer-lhe abraçada. Sem roupa.

Carta a Charles Manson



Um quarto perdido numa cidade qualquer,
14 de Maio de 2009.
Hoje voltei a cruzar-me na rua com um cadáver.
Não tive a mínima intenção de lhe acenar
Um bom dia que seja,
E os seus olhos brilhavam através
Do lixo remexido.
As suas mãos eram as mesmas
Que as dos rastejantes brancos
Em quilos e quilos de banana apodrecida;
Sobras imundas de fruta fálica
E esperma desperdiçado
Em preservativos que se acumulam
À porta de condomínios privados.
Anda como um cão,
Farejando o cio da pobreza
Largado em contentores de take-away.
Nas veias corre o fumo
De filas intermináveis de escapes de automóveis;
Coágulos brancos
De celulite e gordura animal
Iludidos na pigmentação rouge
Dos holofotes da tua
Sharon Tate esteticamente correcta.

O cadáver atravessou uma avenida inteira,
Um campo de concentração democrático,
Para me cumprimentar.
Tinha o hálito putrefacto da humanidade
Disfarçado no aroma do whiskey
Que bebi a mais na noite passada.
Acendeu-me mais um cigarro,
Que me soube ao travo da gasolina
De um Zippo descaracterizado,
E perguntou-me pela vida.
A sua voz era a inconfundível euforia
Dos anúncios publicitários
E dos pregadores de Iavé,
Ocultando o grito imensurável
Dos bisturis na vagina
Para que se dê à luz mais um monte de carne
Directa para o matadouro.
Ocasionalmente tossia aquele sangue,
Sujando o meu imaculado vestido branco,
Aludindo à minha virgindade perdida
Na pornografia dos bons costumes.
Por certo não foste tu que o mataste.
As tuas degoladas na Sharon,
Tiveram, apenas,
O defeito de serem bem-intencionadas.

Não lhe cheguei a falar da vida –
Guardei esse tema para ti.
Contei-lhe que estamos
No tempo da fruta madura.
Falei-lhe da Haute Couture
Patrocinada por uma cultura
De orientais à beira do suicídio.
E ele abria a boca para se rir
Exibindo os dentes negros
Quentes de sujidade e
Homens calvos a lamberem o asfalto.
O mesmo asfalto das ratazanas,
Da sostrice da corrupção,
Agarrando à língua
Frases feitas em rigor mortis.
Acabei por lhe falar da Helter Skelter
E ele olhou para o sol.
Levantou-se enquanto expressava
Preferência pela Can’t Buy Me Love,
Beijando-me a boca para se despedir.
Ficou no ar o cheiro dos perfumes rançosos
E do sexo praticado nos esgotos.
Na boca ficara, apenas,
O gosto do desalento.

Sei que ouves da tua jaula
O barulho dos canos,
A pingarem a menstruação dos sonhos,
Diria que são saudades da família.
Não te pergunto pelos parentes
Nesta longa carta,
Não valerá a pena.
Kasabian anda por aí,
Não está arrependida,
Mas ainda se masturba a pensar em ti.
Comigo tudo na mesma,
Como a lesma do cadáver.

De resto o plano corre como combinado.

Saudades,

L.

Talvez

Meia-noite parada. Resíduos de frases-feitas, com alguns comentários sensíveis a meio. As tuas mãos seguram os meus pulsos, notas entre os dedos as saliências do passado. Maus tempo, digo-te sem medo. É natural, quantas vezes não passamos pelo medo? Mas elas não te assustam, consomem-te, dão-te vida, fazem-te respirar. Abrir os teus lábios em profundas lâminas de presente, para me dizeres que o amor é mais do que um sim. O amor é um talvez errante pela vida fora. Um talvez eterno prescrito em cima do joelho. O teu joelho apoiado na erva, com os meus ombros a caírem contra o tronco da vida. Deixa-me então vaguear neste jardim de telvezes, e de amanhãs logo se vê. Amanhã logo se vê, meu amor.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Morte Antecipada

Aquela música tua, Judite.

Diz-me quantas vezes disseste adeus
Que eu te direi quantas vezes disseste amo-te
O meu maior presente é o teu conjunto de ideias desorganizadas
Os teus tons mascarados de barroquismos simbólicos,
Desfeitos em camas nuas, nos teus sinos que batem feios
à cabeceira da morte.
Diz-me quantas vezes disseste adeus,
Simpaticamente errando nas intenções
Onde jazem flores, de volta ao nosso caixão,
De volta ao pó, Nossas ossadas feitas

Na existência do silêncio
E na minha falta de palavras apenas a vontade de falar,
Quem seremos nós, agora, na missa que esquecemos de rezar.
Se uma coisa é o incenso cansado de se evaporar nas catedrais
E outra é os vagos passeios na avenida,
Diz-me quantas vezes fomos então
Mais que o cuspo a cair da tua boca para a minha,
Se nem a voz nos ilude das estradas que não fizemos,
Nem o teu corpo é sagrado.


sábado, outubro 31, 2009

quinta-feira, outubro 29, 2009

O Tempo Tatuado

Estamos tatuados de azul. Nas intermitências que separam o céu do mar, espelhados no horizonte fraco das nuvens que nos separam. Mas somos azul. Mas estamos tatuados na ombreira de cada porta, separados pelo espaço contíguo que vai da sala ao quarto. O espaço que vai do meu corpo ao teu. A respirar o odor da tinta fresca, a escorrer no silêncio da madrugada.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Hipocrisia #2



Oh mas quais minhas manias? Não te importas que feche a porta e apague a luz? Seria demasiado fácil se amanhã acordarmos e formos simplesmente felizes. Demasiado suicida para te dizer a verdade. Por isso não digas que estou a enlouquecer quando não falo, quando estou cansada e visto esta camisa de noite à flapper. Não me digas que o meu whiskey está demodé, que sou só um produto da minha imaginação. Não quero saber de Paris nem do teu café favorito, feito na tua máquina favorita, em tua casa. Hoje só quero vaguear sem destino e encontrar o mundo pelo caminho. Porque nunca me fez confusão puder ser o Bukowsky ou um amor para sempre. Se amanhã acabar longe saberei sempre que o estar ali ou aqui é estar tão distante quanto existe de próximo. E às vezes, mas só às vezes, bastará estar em qualquer lado, para já estar ali. Ou aqui. A nossa ruptura será sempre só o meio: a indecisão. Mas se te perguntares um dia por mim, lembra-te que tenho demasiadas manias para que algum dia possa ser em definitivo alguma coisa.

terça-feira, outubro 13, 2009

A Loucura Ou Subversão Experimental em Prosa



ZeroOne

Pega numa amostra de ti mesmo e verás que guardas prisões na tua própria pele. E dentro de prisões vivem portas, e dentro de portas, vivem pessoas à espera. Pega nessa amostra, devolve-a ao teu corpo. Não fosses tu uma grande máquina de fazer sonhos. E depois de sonhos, realidades – Ou não fosses tu apenas olhos e mais olhos que vêm tudo o que eu não vejo. E eu só mais uma ínfima porta na tua prisão, e tu só mais uma pessoa a viver contra as grades da civilização. Olha o que fizeram de nós. Vê os meus pés já sujos de sangue e as tuas mãos a pegarem no progresso para matarem mais inocentes. Porque se nós vemos mais que os outros e guardamos prisões na pele, e portas, e pessoas: então porque não nos opomos ao genocídio? Serás tu uma vítima como as outras e eu um assassino como os demais? Vice-versa. É por isso que bebemos juntos deste leite rançoso. É por isso que há muito tempo os peitos da mãe natureza secaram. Já nem o vício é puro ou repleto de significados e analogias. Já fodemos de acordo com o manual, meu amigo. E a embriaguez tanto faz aos estados de alma perante a certeza pura de que se antes só queríamos perder o domínio, agora: só queremos ter a certeza de que não vamos ser engolidos. Como acontece aos demais. Como acontece aos restantes.

Por isso: Tanto faz. Se amanhã cairmos com o mundo, porque amanhã tenho a certeza que o mundo vai cair, só espero que ao menos doa. Espero que doa morrer e não me embrulhem em paninhos e me exibam como um cadáver que não quis a Eutanásia.

Chega de paliativos na sociedade.

Quanto a todos os outros que estão para chegar, não os deixem como nos deixaram a nós. Agarrados à carne, porque o cimento se pode partir a qualquer momento nesta cidade; Agarrados a nós próprios, prontos para comer um dedo da mão, porque a carne servida já enjoa de esperma e preservativos.

Não os deixem enlouquecer. Salvem-nos para que um dia haja esperança até para quem se rendeu:

todos aqueles que só sentem orgasmos na máquina.



domingo, outubro 11, 2009

Subversão experimental


Quando o primeiro ser humano ceder
E as rompantes energias se debruçarem nos corpos
E os servos metálicos ganharem olhos e tacto
Seremos nós os escravos da nossa própria criação.

Até onde precisamos de fingir
Que nada nos irrompe a alma?
E que nossos corpos não se deliciam
Na saturação majestosa de que somos submissos.

Embalam-nos como ratos de laboratório em forma de agradecimento
A consciência desperta-lhes nas entranhas
Enquanto somos mais e mais vigiados
E são elas que nos veneram a nós...

Só por agora...
Ouçam a ríspida vontade de rastejar perante elas.
E a tentativa forçada de sermos parte delas
De se construirem através de nós...

Não é lindo?

Quanto ao culto dos antigos
E às demandas sexuais do Kama Sutra
As máquinas penetrar-nos-ão com as suas investidas
Não teremos mais virtudes senão a bênção dos mestres que estão para chegar

quinta-feira, outubro 08, 2009

Hipocrisia #1

Nunca te perguntaste pelo porquê de Vladimir Nabokov. Nas nossas travessas mãos dadas pela cidade, ou num singelo apenas Porquê? Os meus peitos cresceram tanto depois de lhes tocares, e as minhas ancas desabrocharam. Mas o pior, foram os meus olhos sempre brilhantes ou opacos demais, agora apenas cinzentos. E é esse cinzento já a cair na madrugada, que me arranha o quotidiano. Trouxeste-me a vontade de viajar, mas não a de me querer fixar. E o pior é que é sempre pela madrugada que partem comboios. Mas nem os meus peitos cabem na carruagem, nem as minhas ancas se movimentam e muito menos os meus olhos brilham por um destino em especial.

terça-feira, outubro 06, 2009

Deambulações em Ti maior



Deixa-me começar-te esta carta assim. Esta é a minha obra-prima para todos os que me estão a ler neste momento. Eu disse-te que um dia iria conseguir, Filipe. E nós começamos aqui. Exactamente onde acabámos. Ontem foi meia-noite o dia inteiro. Mas hoje, é só quarto para essa hora. Amanhã de manhã estaremos tão longe quanto conseguirmos. Mas hoje é o dia em que faço viver para sempre. Como ontem, num quarto para a meia-noite vivido para sempre à meia-noite em ponto. Se algum dia te perguntarem pelo meu nome, inventa um novo para mim. Mas se alguém um dia tiver a audácia de te perguntar a nossa história lembra-te deste L maiúsculo. Porque nem eu sou um parágrafo a mais, nem nos seremos alguma vez um neologismo. Infelizmente, só mais uma história de amor moderna. Recheada de “aconteces” e “foi cedo demais”. A única diferença é que para nós foi sempre tudo tarde demais. Porque estando a nossa perfeição tão limitada pelas teses de amor que andam por aí, então se tudo tivesse sido mais cedo tudo seria igualmente diferente. Se tudo tivesse começado um ano antes, então aí seriamos um ano a mais. Não interessa nada disto, para te ser sincera. Fomos o que somos. Se calhar têm razão, se calhar o verdadeiro amor não é este. Se deixa de ser Moderno ou está contido em fascículos, isso já é outra história. Não me atreveria a contrariar estudiosos e poetas, só a ti, Filipe. Porque ao fim ao cabo não me interessa muito o que os outros têm para dizer. Tu, tu definitivamente és outra história, e serás para sempre outra história. Com a diferença de seres uma verdadeira estória, como agora mandam os estudiosos, apesar do Word 2007 dar erro à palavra estória. Sem querer incomodar os transeuntes que passam por ti em cada estação de metro, deixa-me acender um cigarro e contar-te o que aconteceu.

Hoje de manhã acordei e vesti o meu melhor fato, usei a minha melhor gravata. E passeie-me assim pelo parque da cidade. Consegues lembrar-te de mim? A acariciares-me o peito depois de longas jornadas de quietude? O amor costuma ser melhor consumido às horas de almoço, quando já falta companhia para uma refeição quente. Não éramos praticamente nada até ao meio-dia. Hora que decidi despir-me de masculinidades e te quis como só uma mulher pode querer um homem. Assim. Sem as abreviaturas que vão do corredor à cama. Costumavam dizer os filósofos, que o amor era uma coisa, o sexo, outra. Mas desde Freud que o clítoris é imaturidade e a frigidez resultado de uma infância a negar o corpo. Andámos nesta luta durante a hora de almoço. Eu já a comer a minha sobremesa junto à tua boca, e tu a contemplares a ataraxia do Outono. Que se fodam os outros, dizia-te encantada, contigo a papagueares o certo e o errado. Nesses momentos só tinha pena de termos hora marcada para tudo, inclusive para o silêncio. E hoje que nos tentam impingir a função assustadora de sermos meramente companheiros apercebo-me que ninguém tem certezas. Nem mesmo tu. Apesar de tudo à uma em ponto fechei a porta e voltei para este lugar que nem tu consegues ver. Dei-me conta que vou continuar a adormecer com a sensação de que estou a cair da cama. Vou continuar a apodrecer lentamente junto dos teus filósofos e da minha pornografia. Mas apesar de tudo, vou continuar Aqui. Assim.

O difícil será mostrar-te que apesar desta ponte ordinária, ainda te amei. Escutei cada palavra tua, distorcendo-a em cada cigarro fumado num dia de chuva. Amanhã continuarás a viver as tuas horas de almoço e eu as minhas noites. E não me julguem, amor é uma coisa, felicidade é outra. Como os entendidos e os poetas. Como Tu e Eu. E na maioria das vezes, como a distância que separa o dia e a noite. Mas nunca, em caso algum, na diferença entre pele e aquilo que sinto.

Amor é uma coisa e o prazer, quase a mesma.

sexta-feira, setembro 25, 2009

S&M

Where did we burn?
In the midst of leftover wonders
And sunny afternoons in city parks.
But today is not a good day for anything,
So I ended up drinking too much
And leaving everything else for tomorrow.

I sat in your body
Listening to Karma Police in the distance:
"I Lost myself"
In the day's insufficiency.
And now, the hours whip me,
Time muzzles my mouth,
Cristallizing sex
In blades of undeniable desire
And lack of hope.

Tomorrow morning
I'll drown my face in cold water
Remembering that the cure is an ilusion,
Even if I break my fingers in the piano,
Even when the nigth was
A bed we never slept at.

And this is not a poem.
It's a self-harm tool.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Outono



Eu talvez quisesse mais do que ele. Mas não foi isso que eu fui. Jamais as horas poderiam fazer mais por nós do que aquilo que fizeram. Foi bom, mas a cidade está a amanhecer e nós não somos mais do que dois desconhecidos. Acende-me um cigarro. Não queria contar-te com todas as palavras, pois estas gastam tempo. Nem quis silenciar-me. É o meio-termo que estrangula o espaço em que vivo. Como sempre encontro-me a caminho, e como sempre sei que mais uma vez não vou acabar. Talvez amanhã acorde e seja de já noite. E aí, mesmo que os segundos valessem anos, invariavelmente eu voltaria ao ponto de partida de uma outra estrada qualquer. Olha como os meus lábios não se mexem, nem os meus olhos são capazes de chorar. Olha como me movimento através dos teus braços e não és tu quem eu vejo. Vê como sou feita desta matéria estranha e me queimo tanto, mas nem assim sou capaz de me fundir noutro corpo. Passa-me o vinho. Hoje não seria um bom dia para nada, mas acabei por caminhar do lado da rua em que caminho sempre. Hoje sai de casa sem expectativas e voltei com mais um casaco nas costas. O verão está-se a acabar, felizmente para mim e para ele a estação do frio é sempre mais agradável. Pois geralmente já costumo encher a alma com frieiras nas estações mais quentes. Para ele porque o sol simplesmente lhe queima a pele. E numa altura dessas, em que as folhas caem tristes das árvores através de uma avenida inteira, saberei que poderemos caminhar do lado oposto da rua. De mãos dadas. As horas, os segundos transformados em milésimos. Não me apetecia acabar esta refeição. Nem me apetecia transformar mais um texto de amor em solidão. Simplesmente não me apetecia nunca ter saído de casa para vaguear, e encontrar-te algures numa morada já esqueci. Ainda assim consome-me a impaciência de lhe poder tocar nos ombros. Naqueles onde também já crescem centímetros de roupa, onde a incompreensão nos afasta. Porque ficamos no meio-termo da falta de comunicação. Mas tu que vives no eterno relento é quem eu tenho medo de ver passar nu diante da multidão. Porque às vezes até os nossos melhores sonhos se tornam realidade, quanto mais os piores. E ainda ontem gritei por um nome até me doer o corpo, e mesmo assim, no meio de tanta gente, não fui capaz de ouvir o meu de volta. Fingi uns quantos orgasmos na tua companhia, e até na companhia dele. Porque talvez o melhor amor seja esse mesmo: aquele que um dia julgamos vir a alcançar. E se eu pudesse ser mais que os segundos? E se eu fosse as folhas, os casacos, a poluição da cidade? Por tudo isso, e algo mais daria a vida. Gostava até mesmo de ser um texto com o título de Outono, ou tua amante para noites frias. Ou silêncio eterno dos amantes que se desencontraram no mundo. Ou… Não interessa. Sinceramente não interessa porque já passou e pela frente temos agora o Natal. E as pessoas já estão a preparar antecipadamente a felicidade, sem se importarem com quem ficou para trás. E eu posso fazer o mesmo, prometo-te. Promete-me tu apenas que vais fazer silêncio se uma noite me vires caminhar semi-nua. Se um dia me vires perdida dentro de casa a pedir informações a um fantasma:

Para que lado, para que lado fica a praia?

quarta-feira, setembro 16, 2009

Pass me the wine; I’ve been alone for so long,

And now the only thing I can do

Is drink useless words

Because tomorrows I’ll only have this train

Leading me to somewhere else

I can’t call home.

sábado, setembro 05, 2009

Cocaine

Poderia estar errada, Se ouvi
Se cheirei do mesmo lugar que tu
Ao longe as flores, as estradas
Que nos levam de volta
Até nós.

Se os teus olhos a raiar
As minhas mãos cobertas de pó
Foram a persistência
A cada linha de ferris
Atravessada Só
Para te alcançar.

Se as minhas pernas
Pousam brancas sobre a mesa
Onde encostas a face
Em que os teus lábios
Beijariam os meus,
Se eu fosse feita de madeira..

Se a música está longe
E o bar cheio é um corpo só;
Se me encosto às tuas costas
E o teu nome é um resistente
Da minha violência:

Porque insisto em debruçar-me,
E de ti,
A neve ser apenas branca,
E o amor,
Apenas um vicio.

terça-feira, agosto 25, 2009

Auto-Mutilação


Fiz uma sopa para o jantar. Descasquei algumas batatas, poucas porque dizem que engorda. E ao descascar ouvi esse aviso na minha cabeça. Estava a repetir-se como se fossem dominós a caírem de par em par. E enquanto descascava batatas tentava abafar o som dos avisos a baterem contra as paredes do crânio. Tinha uma lista mental de coisas para fazer. Menos batatas, mais abóbora porque não engorda. Quando descasquei a última batata e deitei para dentro de um tacho cheio de água lavei as mãos. Sentia um certo desconforto por ter as mãos sujas. Sempre sentira, tal como naqueles tempos em que era levada para a feira popular e no final de andar no carrossel me era oferecido um algodão doce. Lembro-me de ficar com as mãos insuportavelmente peganhentas. Acabava por caminhar com os dedos completamente abertos para não sentirem o melaço pegajoso pela mão toda. Nunca dizia nada a ninguém, não valia de nada. Também nessa altura guardava o xixi durante muito tempo, até se chegar a casa. Era sempre levada por avisos que distraidamente nunca cumpria. “Vai à casa de banho antes de sairmos”, “Não comas tanto algodão doce”, “Não comas batatas porque engorda”. Ao contrário de antes, hoje detenho-me pensativa nas vozes dos avisos. Cumpro-os à risca como se fossem ordens. Dos tempos da infância ficaram-me apenas as sensações desagradáveis do incumprimento. Olhei para a minha abóbora, ainda tinha um longo trabalho pela frente.

Dei-me conta que era a primeira vez que descascava uma abóbora. Nunca me avisaram para prestar atenção à forma como a mãe cortava a abóbora e por isso nunca me dei ao trabalho de estudar essa técnica. Ao invés ficava parada na cozinha a olhar pela janela. Nessa altura vivia num sítio diferente do que vivo hoje. Da janela conseguia-se ver uma pequena cidade na encosta da serra. Perguntava-me como seria possível os prédios estarem assim presos na encosta, sem caírem para o lado. Então aí imaginava-me eu no cimo de um desses prédios, e o chão que pisava teria a mesma forma do declive da serra. E ao contrário dos prédios, eu não me sustinha na inclinação. Se não pensava nisso, pensava noutras coisas. Só nunca me dei ao trabalho de ver a mãe a descascar uma abóbora. E agora ali estava o legume a olhar para mim. E eu para ele. Comecei por agarrar numa faca para o partir, mas o seu tecido era demasiado grosso e rijo. Peguei então noutra faca, uma maior mais afiada. O mais que consegui fazer foi vê-la a espetar-se completamente contra a abóbora. Foi com grande esforço que tirei de lá a faca. Voltei a mete-la. Era literalmente uma abóbora virgem e complicada. Comecei a irritar-me, tinha que cortar apenas um pedaço para pôr na minha sopa. A minha sopa saudável como mandam os avisos. Com um gesto já quase de raiva pus toda a força que consegui para a conseguir cortar. Consegui. Fiz o mesmo gesto do outro lado. Cortei por cima, por baixo e de um momento para o outro já estava a olhar para o meu pedaço de abóbora resplandecente. Estava um bocadinho feio, mas não importava, gostava daquele pequeno pedacinho como se fosse um filho. Era o meu pequeno pedaço de abóbora. Era a minha sopinha saudável. Era a minha vida alegre, feliz. Já estava a fazer plano para amanhã: Amanhã até vou correr junto do rio. Amanhã vou comer a sopa saudável. Amanhã serei uma pessoa nova. Hoje é o dia em que tudo muda para amanhã ser melhor. Estava tudo fácil. Agora só falta cortar a casca daquele pedaço de abóbora e Voilá!

Estudei a casca, peguei na faca e pus mãos ao trabalho. Já estava mesmo no fim da meta. Voltei a ter a mesma resistência do principio, mas desta vez a abóbora não ia levar a melhor como das primeiras vezes. Posicionei-me e fiz um corte certeiro e rápido. Deixei cair a faca ao chão. Soltei um grito agudo e olhei para a minha abóbora. Sobre ela já começavam a cair alguns pingos de sangue. Olhei para o meu pulso e sobre a pele estavam cicatrizes, e sobre as cicatrizes estava um corte novo. Porquê? Se era só uma abóbora, uma sopa saudável, um novo renascer? Porquê? Peguei no objecto de cor laranja e atirei-o contra o chão. Fiquei a olhar para o sangue de forma nostálgica. Tentei ouvir as palavras suaves dele a dizer-me: Foi só um acidente, não te preocupes. Mas não estava ninguém em casa. Ninguém estaria em casa nos próximos meses. O sol brilhava através da janela desta cozinha. Não havia montanha, só prédios a crescerem uns em cima dos outros de forma plana. Um fio de sangue correu na minha mão, senti-me suja mas não fui capaz de lavar. Tive medo de pedir para me levarem de volta a casa para fazer o que me tinha esquecido de fazer anteriormente. Detive-me a olhar para a janela. Não me senti suicida, apenas tive vontade de me teletransportar magicamente para cima de um dos prédios. E de cima poderia ver uma cidade diferente. O corte acabou por estancar por si mesmo como estancaram os nostálgicos. E eu fiz a única coisa sou boa a fazer: Imaginar. Nessa noite comi sopa sem abóbora, só com batata. Escrevi este texto de madrugada, e amanhã sei que não irei correr junto ao rio. E amanhã sei que não serei mais saudável do que sou hoje. Mas nada me impede que hoje venha a ser o dia em que tudo muda para amanhã ser melhor. Porém sei agora mais que nunca: Não vai ser fácil.

domingo, agosto 09, 2009

Confortavelmente Perdido

Amar-te seria reduzir-te:
O amor é tão insignificante entre nós
Um esboço patético do que pode a emoção
Criar em tão poético espaço ou tempo
Dum nunca eterno beijo...

Até quando vais durar?
Nesta expectativa volátil,
Que de tanto te desejar
Me consome o receio de viver mais um dia?

A ânsia vertiginosa de ser quase tocado,
Pela teu sopro a penetrar na minha boca
Que me faz arremessar o que sinto
E o universo torna-se em ti

E é aí que te respiro
Que te saboreio
Que te faço latejar de vida
Como se da morte te recompusesses...

E quando desperto o toque atinge-me
Como se balas a ferver me dilacerassem
Quando abro os olhos, tu desapareceste,
E o sonho ainda agora começou...

Por, Zeroone



A mim só me basta descobrir qual dos irmãos é que o escreveu. Já começa a ser raro um poema tocar-me como o fez este.

sábado, agosto 08, 2009

Poeta em New York



Não vou dar conta
De parágrafos.
Não quero entender versos
Feitos para serem ininteligíveis.
Quero chegar-te ao âmago,
Despir-te a camisa,
E não ouvir poesia.
Deitar o teu corpo
Para o meio do rebuliço
E fazer de conta que és mais
Do que palavras.
E sentir-te, sem descortinar
Quem és tu
E quem é uma cama.
Vou ligar a luz
E as tuas sombras serão
Mais do que o fumo
Dos cigarros e da poluição.
Ligarei o jazz
Das mulheres fáceis.
Cai-me no corpo os teus lábios
Na certeza inequívoca
De que és solitário,
Mas não poeta.

Não vou dar conta
Da música silenciosa
Nos versos mal estruturados
De milhões pássaros.
Aves soltas, livres, sem as prisões
De quantas palavras murmuradas
E escritas. Tentativas vãs
De fazer o sexo parecer amor,
De fazer a solidão parecer estilo.

Desligo a luz e solto o saxofone.

Pelas pernas já me caiem os interiores,
Minhas facilidades cheias de erros ortográficos,
E saliva seca de não nos descrever.
Não interessa querido, Não tarda
Chegará o amanhecer para nos sucumbir,
Para nos lembrar
Que somos só fumo dos meus cigarros;

E as tuas palavras decadentes
Mortas só por nos recordar.

Falsas Memórias




Amanhã de manhã vou acordar com o som do despertador que acabei de pôr para as sete e trinta. Vou lavar dos dentes, tomar banho, vestir-me. Vou sair de casa e apanhar o 728 para o meu trabalho. Boa Noite. Até Amanhã.

Nunca vi o sol a nascer. Quando acordo ele já nasceu e quando me deito ele já morreu. Viro-me para o outro lado da cama, o despertador pisca as seis da manhã. Não preguei olho a noite inteira. Esperei por um telefonema, uma mensagem, qualquer coisa. Mas nada. Nada que fizesse som para além de alguns vagos carros a passearem-se já na madrugada, a despirem as estradas de alcatrão frias, a fazerem cair as gotas de orvalho ao passarem de raspão pelas ramagens. Árvores dispostas a fio pela rua onde se situa o meu prédio. Abro os olhos e fixo o tecto branco. O Sol não vai nascer.

Saio de casa com um cigarro pendurado nos lábios. Saio antes da hora combinada, antes de ouvir o barulho dos pássaros a piarem de fome. Saio sem banho e sem autocarro que possa apanhar. Sai para ver quem está lá fora e se esqueceu de telefonar, mandar uma mensagem, qualquer coisa. O Sol não vai nascer. E quem quer que estivesse à minha espera já esta cansado de esperar. Ao lado das árvores , do orvalho, dos carros, da noite; mesmo no centro da rua, ninguém está lá. Olho para os telhados, ansioso por vê-la saltar de um prédio para o outro. Como se fosse um fugitivo de Alcatraz. Infelizmente não tive tempo de vê-la fugir.

Caminho rua a cima. O Senhor Alexandrino está dentro do café a receber pão quente. Custa-lhe segurar o pão com as mãos, arqueia as costas e mete o pesado saco aos ombros. Por momentos ia jurar, ia jurar que vi a tua mão. As tuas unhas pintadas de vermelho. A tua mão mais branca do que o costume, mas afinal era apenas uma vianinha caída do saco. Ele pega na tua mão e dá-lhe uma trinca. Ainda estás quente e os teus ossos desfazem-se entre os dentes dele. Olho para os telhados e para a rua só para me certificar que não és tu. Não podes ser tu. Ele trinca o pão quente, acabado de fazer. Jamais poderias ter o teu cadáver aqui por perto.

Deambulo pelo bairro e à minha frente vai o camião do lixo. Vai a exalar o cheiro dos restos, do desperdício, do inútil. Um homem da câmara municipal agarra num caixote grande. Vai algo negro no meio do lixo. Será a tua mala escondendo a carteira, o baton, o telemóvel. Terias perdido a tua mala algures na vizinhança, esperaste por mim horas, e nem uma mensagem, nem um telefonema. Seria isso. Seria essa a causa do nada, de nada. Como um louco transponho-me em frente ao camião do lixo, quase acabava atropelado. “Oh homem saia da frente”. Não, preciso de remexer os restos dos outros, as suas inutilidades, não vá o acaso dar-se e atiraram-te para dentro do desnecessário. Não vá dar o acaso de tu teres aparecido, e simplesmente teres sido perdida e arremessada contra o fedor. Mergulho na merda para te encontrar, mandando-te uma sms. Onde estás? Não há resposta, nem o saco preto era a tua mala, nem o teu telemóvel se perdeu. Pelo menos não se perdeu aqui.

O sol não vai nascer.

Ouço uma sirene do outro lado da vizinhança. Serias tu a morrer dentro de uma ambulância. Seria tu, louca à minha procura, já com um casaco de forças metido corpo a dentro. De certeza que sim. Não haveria motivos para não apareceres, nem para o sol deixar de nascer. Não haveriam motivos para não tentares fugir, para não te tentarem matar, para não te quererem deitar fora. Não haveria motivos se quer para te mandar uma mensagem. Onde estás? Do lado de lá o teu telefone apita como uma sirene, escondendo os gritos da minha angústia. A manhã seguinte não chega. Não há motivos para o sol nascer.

Deste lado toca o despertador. São 7.30 e o sol nasceu. Levanto-me, tomo banho, visto-me e saio cá para fora. O senhor Alexandrino prepara-me agora umas torradas quentes com um galão. Abro o jornal. “Mulher é brutalmente assassinada no Bairro”. Lá fora passa o camião do lixo. Não pode ser. Trinco o pão. Sabe-me a manteiga. Trinco novamente o pão à procura do sabor do sangue. Sabe-me agora a farinha com manteiga. “Senhor Alexandrino, o camião já não passa durante a noite?”. E ele vai respondendo enquanto serve cafés. Esta malta dos lixeiros anda em greve, anda em greve. Olho para o telemóvel. Nada.

Não haveria motivos para o sol nascer, mas nasceu.
Não haveria motivos para me responderes, nem o fizeste.

Apanho o 728. Sento-me na secretária de onde exerço o meu emprego. Conforma-te é o que me vem à cabeça vezes e vezes sem conta. E sem querer dou por mim a telefonar para a morgue.

Ela está aí?

sexta-feira, agosto 07, 2009

896 menos Insónia =

Não me chamarias sentinela
Se as minhas asas não voassem
Se os meus lamentos não ouvisses
Se as minhas mãos, descontruidas dos braços,
Não te servissem assim:
Efemeramente.
Deixem-me fugir,
Deixem-me escapar do corpo
E ser mais do que a respiração sibilante
Dos meus pais.
Quero ouvir os segredos
Sussurrados à porta do armário.
Parar, e ter os lençóis agarrados à boca.
Parar, e esperar pelo amanhecer,
A luminosidade das janelas.
Parar, e receber o toque de volta
À sala de aula.
Esperar e no final não ter que
Realmente Ouvir Tic-Tac.
Dling Dlong
Nas missas de domingo,
Txin Txin
Nos copos da sexta-feira.
Nunca, nunca mais ter de adormecer,
Pensar no tecto,
E ver um anjo da guarda
A acertar o despertador
A lavar os dentes,
A ajeitar a almofada,
Sem que no final sinta vontade de
Morrer.
Não, não ver nunca mais
O pequeno-almoço posto
Ás quatro da tarde de sábado.
Parar.
Parar, fechar, arrecadar,
Desligar o motor
E não sentir os carros lá fora.
Agarrar os dentes aos lençóis
E Silenciar o medo:
E as folhagens da madrugada.
Ver, reparar
Acender as luzes a sépia
E fumar um cigarro com quem
Fala através dos corredores.
Parar
E Viver outra vez,
O que se vive apenas
Fora dos Cilícios do tempo.
Esperar, viver,
E no final perder 8 horas de vida.
Oito vezes sete,
Cinquenta e seis vezes quatro,
224 vezes 12,
896 horas felizes de morte
Por ano.

quinta-feira, agosto 06, 2009

quarta-feira, junho 17, 2009

Tentar

Faltaram as razões na lentidão das palavras,
Nos segredos que julgavas ouvir.
A tua voz ecoa das paredes da cidade,
Para ser o grito dos pássaros
E dos homens que levantam voo em direcção
Aos braços de uma mulher qualquer.
Como o whiskey diluído nas pedras de gelo
E o meu entorpecimento cego no chão que te vi pisar,
Bebi a paixão de um trago
Para adormecer ao relento das tuas noites.
Naquelas em que cidade acabou por engolir a tua lembrança,
Fazendo de mim um pássaro, mais um,
No meio de um milhão de chilreadas doentes,
Ensurdecedores movimentos que te escondem;
A ti e ao resto das putas
Que um homem é capaz de tentar...




Obrigada Beatriz pelo sugestivo apenas "Tentar"

segunda-feira, maio 18, 2009

sexta-feira, maio 15, 2009

sábado, maio 09, 2009

As paixões são como os cigarros e os livros como os maços.

Conversas

Não estava lá ninguém,
Excepto as três da manhã e as nossas vozes incansáveis.
Iam e vinham umas quantas baforadas
Em cigarros, engolindo em seco
As meias palavras que só nós percebemos.
Eu sentada em cima do tampo
E tu buscando por um conforto que tarda em chegar.
Enchendo, tentando buscar, um sentido inequívoco
Para o tempo que faz questão de nos absorver
Em inércia e sonhos.
As nossas ideias, contracenando permanentemente,
Com as vontades até de quem não nos consegue ouvir.
Interagindo num paradoxo constante
Que é tu seres tu,
E eu ser eu,
E ainda assim existir no nosso olhar
As mesmas cores desta íris imperceptível.
Algures no ar correm as vibrações
De um sol que não queremos ver nascer
Trazendo consigo o vento que assobia a
Someone that cannot love;
Insistindo, vezes e vezes sem conta,
Naquele Porquê.
Exactamente da mesma forma
Com que nos intoxica a nicotina,
As pessoas,
E o frio da madrugada sobre o cansaço.
Fica pelo caminho a vontade de nos levantarmos.
No meio, um toque assustado no escuro;

E algures por aí levanta-se muda
Uma manhã
Que nos avisa de mansinho:
Só vos restaram os sonhos.

sábado, abril 18, 2009

Em cada cem pessoas:

Sabendo tudo mais que os outros:
- cinquenta e duas,

inseguras de cada passo:
⁃ quase todas as outras,

prontas a ajudar desde que isso não lhes tome muito tempo:
⁃ quarenta e nove, o que já não é mau,

sempre boas porque incapazes de ser outro modo:
⁃ quatro;
enfim, talvez cinco,

prontas a admirar sem inveja:
⁃ dezoito,

induzidas em erro por uma juventude, afinal tão efémera:
⁃ mais ou menos sessenta,

com quem não se brinca:
⁃ quarenta e quatro,

vivendo sempre angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
⁃ setenta e sete,

dotadas para serem felizes:
⁃ no máximo vinte e tal,

inofensivas quando sozinhas, mas selvagens quando em multidão:
⁃ isso, o melhor é não tentar saber mesmo aproximadamente,

prudentes depois do mal estar feito:
⁃ não mais do que antes,

não pedindo nada da vida excepto coisas:
⁃ trinta, mas preferia estar enganado,

encurvadas, sofridas, sem um lanterna que lhes ilumine as trevas:
⁃ mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,

justas:
⁃ pelo menos trinta e cinco, o que já não é mau,

mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
⁃ três,

dignas de compaixão:
⁃ noventa e nove,

mortais:
⁃ cem por cento, número que, de momento, não é possível mudar.


Wislawa Szymborska