domingo, outubro 12, 2008

Amor Masoquista

Há uma certa sintonia. Um sinónimo de prazer na simulação da intimidade. Não importa tempo nem lugar quando se dispõe este ser humano à auto-mutilação que é o amor. E vem esta mulher que gosta de amar todas as noites um homem diferente. Simplesmente diferente. Fora dos preconceitos: "Eu não sou puta, sou masoquista". E sabe bem do que diz; afinal de contas, quem será louco o suficiente para se entregar assim por umas horas? Tentando encontrar por entre o seu esperma um sentido de carinho. Apenas, dizia ela, buscava o amor onde ninguém o procura. Se era feliz assim? Era-o até descobrir que no corpo dela, nos seus fluídos, ninguém procurava o mesmo.

Desde essa altura entendeu que o melhor não seria este amor para ela. Procurou um homem e apenas o deixou penetrar nos recônditos da sua alma. Contou-lhe a vidas, as paixões, os amores, os livros que lia. Trocaram CD's, fotografias, e viram filmes juntos. Amava a sua marca invisível que lhe transpunha o corpo e fazia dele um homem único. Entregou-se de forma moralmente correcta. Entregou-se em pleno.

E, quando se deu conta, era tarde demais. Deixava de lhe doer o corpo nesse amor solitário, para ter as dores de quem lhe queria mais. As dores gritantes do afecto imensurável e idealista. Mas como tudo o que tem princípio também tem um fim, ela deixou de o amar.

Bastava o físico, bastava o esperma, os corpos e o suor para se lembrar que procurava o amor nos lugares errados. Nunca esteve no corpo, por não o encontrar no corpo, nunca esteve na alma por não lhe conseguir tocar.

"Onde ficamos?", perguntou ela no final... "Ficou aqui...", e ele finalmente lhe deu uma nota de 500€. Sorriu e disse-lhe "hoje esteve difícil...". Ele sai porta fora e ela deixa de divagar. Cheira a nota, sente-se feliz e realizada. "Então era aí que estavas, amor...".