sexta-feira, agosto 22, 2008

Quarto

Há uma pessoa, apenas uma pessoa.

Neste quarto que se deu ao meu abandono apenas ficou uma pessoa. Mas ao menos essa pessoa está aqui. Para quando me levanto insone pela madrugada a gritar os nomes dos meus pesadelos. Para quando acordo com o sol proveniente das frechas da persiana. O Sol bate ao mesmo ritmo sobre os nossos corpos despidos. Por vezes ainda a enxaguar uma tristeza que nasceu em nós. Levantas-te, afagas-me o cabelo e sorris-me. São as manhãs da minha salvação, é o momento que me permite redimir uma noite de coisas que vêm podres desde a infância. Sou capaz de sorrir. Sou capaz de te dizer que somos como dois pássaros que voam livres na mesma direcção. E sinto-me pura. E sinto que serei capaz de enfrentar o dia, de continuar, de enfrentar a próxima noite. De enfrentar todas as noites e todos os dias que se seguirão até à nossa velhice. Até ao verdadeiro momento de solidão, de corpo gelado e cobertor em cima.

Como diria a Virginia Woolf “Jamais alguém poderia ter sido tão feliz quanto nós fomos”, eu poderia dizer-lhe que nunca me conheceu a ti ou a mim. Para o bem dos nossos corpos, posso dizer que felizmente existimos. Orgulhosa levanto-me ao teu lado apenas por saber que consegui ser melhor que aquilo que me foi dado.

We made it...

domingo, agosto 03, 2008

Esquecimento

Risco inutilidades num pedaço de papel. No seu verso alguém se disponibliza a desfazer qualquer trabalho de magia e bruxaria, é uma consultora espíritual que me promete até fazer crescer o pénis. Bastava-me que me tratasse dos problemas de inércia. Preciso urgentemente de vontade de me levantar desta poltrona e começar a viver. Talvez se alguém me conseguisse resolver este problema eu viesse a precisar de um pénis maior, de amor, negócios ou justiça. Talvez viesse a precisar de “trazer de volta a pessoa amada”. Sinto que comecei a fazer a cama dentro do meu próprio caixão.


Alguém me põe uma mão no ombro e pergunta-me se preciso de mais alguma coisa. “Um café bem forte e a minha preguiça por favor”. Para quê estar acordado se não me apetece fazer nada? O café chega com o cheiro adocicado da morte. E ela, com o seu vestido branco a arrastar pelo chão faz-me lembrar que um dia já fui feliz. Com um sorriso inclina-se sobre a minha face e diz-me que a minha preguiça já está fora de validade. Ela tem um motivo para estar alí. Há uns dias uma voz familiar disse-me que era a empregada nova. Nunca tinha reparada bem nela, não costumo reparar no pessoal menor. A única coisa que lhe vislumbrava eram as mãos meias enrugadas sobre os meus ombros. Porque não incomodava toda aquela familiaridade com uma empregada? Porque deixei que ela me passasse a mão pelos ombros, pelo pescoço. A mão dela sobre a minha mão.


Senti-me estranho, enojado, como se tivesse estado a sonhar durante muito tempo com algo improvavél. Como deixei as coisas chegarem a este ponto? Sinto-me como se tivesse feito amor com a minha própria mãe. Estou sujo, feio e velho. Preferia que já me tivessem acabado com esta agonia. Foi impulso, eu sei, mas chamei aquela velha e disse-lhe que estava despedida. Ela começou a chorar a tocar-me mais...


Por momentos tive vontade de a abraçar, mas fui forte. Como é que ela se atreve a dizer que é a minha mulher? A minha Carolina...

sábado, agosto 02, 2008

Pedras

O caos agita-se

Numa sombra distante,

De um caminho que julguei seguir

Mas do qual acabei por fugir.

As manias entranham-se no espírito,

E a fome de de me contradizer

Alivia-me da realidade que não consigo sentir.

Abrigo-me na fortaleza de que um dia estarei tão só

Quanto este universo tem de gigante.

Espero, reencontro, tenho tanto para dizer,

Mas da voz saem-me pedras abandonadas.

Consegues ouvi-las?

As rochas de uma alma

Que ainda agora começou a viver.

Corto o cordão-umbilical,

Na esperança de que os fantasmas se apaguem,

E as mentiras caiam.


Alio-me a uma solidão natural, humana,

Que cresce no patamar de uma cidade velha.

As luzes apagam-se e acendem,

Incandescentes nestas ruas onde jazem heróis.

Homens que perderam a vontade de voar

A quem roubaram as capas e a capacidade para amar.

Agarro em vão os sonhos que se tentam suicidar.

O penhasco e o mar riscam mais um desejo efémero:

E eu volto, Continuo...

Persigo um caminho que me parece em vão,

Subo a escada de um andar

E vez de subir,

Continuo a descer.


Grito a plenitude um ser que julguei ser...

Grito o murmúrio de uma pedra que julgava conhecer,

Sei-o mais hoje que ontem,

Vale a pena a escada, o prédio, a cidade.

Os sonhos, os medos,

O tempo que passa e volta,

A subida e a descida,

A avenida do meu crescer.


Os heróis levantam-se, voltam para a casa, Apagam as luzes. Apagam-se. Adormecem e Voltam a sonhar. E Voltam a Amar.