sexta-feira, julho 18, 2008

Dependências

Há uma harmonia no rosto dela jamais comparável com o mar que se atravessa atrás do cabelo. Por mim diria, tão harmoniosa que está quase morta. E ela diz-me, repete-me que estragou a vida em dependências. Que queres que te faça? A vida sempre foi tua e não minha. Mas mesmo assim continuas a repetir as mesmas palavras, transgridem a realidade, chego a sonhar com elas, a detestá-las e a amá-las ao mesmo tempo. Que seria de ti se não fossem as coisas que te agarram ao mundo? Que seria de ti se não tivesses dependências? Perguntava-te exaustivamente, até estar cansado, chateado e irritado. E tu falas-me com um sorriso franco: “ não sei Rui, provavelmente já não estaria aqui”. Mas acabam por ser as dependências que te enfraquecem e matam aos poucos.

Nunca conheci ninguém assim, tão simples e complicado ao mesmo tempo. Se tivesse acontecido com a minha mãe provavelmente não andarias à solta. Ela sempre teve medo de drogados e suicidas. Mas comigo estás ok. Sou a única dependência que não te mata. Pelo menos não tento quanto tudo o resto. Gostas de te deixar ficar ao meu lado, simples, simples, mas sempre cheia de conversas e raciocínios complicados. Deitas-te ao meu lado a pensar se te toco com prazer ou se com amor. E isto mesmo quando te repito, já exausto, que te amo.

Ainda hoje me pareceste junto à cama como uma criança, de joelhos pediste-me que me vestisse e te levasse para junto dos teus amigos. Foi o que eu fiz, ainda que quisesse mais ainda levar-te para perto de mim. Entrámos no carro, já semi-abandonados, e eu conduzi-te para longe. Quis levar-te, dar-te um lar, um corredor de fotografia e miúdos. Mas não pareceste compreender. Chegados ao bairro degradado pediste-me 20 euros e a seguir perguntaste, “ ainda me amas”. Exausto, cansado.... mas não irritado, respondi: “ ainda te amo”. Vi-te a atravessares as ruelas até desapareceres do meu olhar. Já estavas longe de casa, do lar, das fotografias do nosso futuro. Parecia mentira, mas ainda te amava, e à medida que o tempo passava cada vez mais doentio, amava-te mais. Quem me dera ter coragem para nunca me apaixonar...

Deitei a cabeça sobre o volante e viajei. Chorei como um miúdo obrigado a crescer cedo demais. Jamais deixaríamos os nossos filhos crescerem cedo de mais, certo Sara? Quando finalmente levantei a cabeça é que reparei, estava de novo junto ao mar... Estava de novo muito, muito longe de casa...

Como sempre andei para a frente, de coração caído e cabeça erguida vi-te a regredir. Seria a tua metamorfose da morte? E tantas vezes que te perguntei se querias viver e me respondeste que não. E tantas vezes te perguntei se querias continuar comigo e me disseste que sim. Naqueles momentos, e foram alguns, em que me pareceste cheia de vida e planos eu renasci das cinzas mais negras, mais profundas. Foram alentos, os mais felizes da minha vida, que me puseram num estado de permanente agitação. È contigo que sonho sem razão, até quando dormes ao meu lado. Até quando te sinto inteira e sóbria. Até quando me voltas a escapar por entres os dedos...

Sei que voltas. Voltas sempre. Conhecendo-te como te conheço, até da morte serias capaz de voltar. Mas até que voltes... Oh Sara, até que voltes morre mais um pedaço de mim. Sou um homem como todos os outros, ainda que te diga que te vou proteger como um anjo, ainda que todos os dias te diga que vivo pelo amor... Acredita, nada me embaraça mais do que a fraqueza. Não era suposto chorar nem sair pelas noites atrás de ti. Esta cidade esconde o medo do teu olhar, a violência dos teus pensamentos e a ambição dos teus desejos. Por isso não me deixes caminhar só por aqui. Sabes que sou agredido pelo teu amor e nada magoa mais do que procurar-te a não te encontrar. Não voltes para lá... Não caminhes para lá.

Mas agora junto ao mar todas as palavras voltam ao seu estado inicial. Puramente ideias sem nome ou condição. E tu, uma vezes estás e outras te vais. Ao que te pergunto: “também tenho dependências?”. Ao que tu respondes, “Sim, e as tuas matam tanto quanto as minhas”. Dás um bafo no cigarro e eu estou capaz de compreender palavras sábias. E pergunto, questiono no vazio: “ porque me matas assim Sara?”.

quinta-feira, julho 17, 2008

O mito do Rei

Elvis Aaron Presley nasceu, viveu, moldou e redesenhou a década de 50 dos anos 1900. Entendido como um ídolo, mal-entendido como um estranho perversor de uma juventude indefinida pós-baby boom, Presley tornou-se um mito ainda em vida.


Há muitas formas de transformar homens em mitos, mas a sua foi porventura a mais eficiente. Elvis, mais do que a designação de um ser humano, tornou-se num conceito despegado da música e das palavras que proferia. Muitos pais proibiam os seus filhos de o escutar sem nunca eles mesmos terem escutado uma música do início ao fim. Muitos filhos insistiam em vê-lo ao vivo sem nunca pararem com os gritos e comentários, prestando atenção a tudo menos à música.




Ainda hoje, Elvis permanece no imaginário colectivo de uma civilização culturalmente impregnada do pop americano. São raras as pessoas que hoje ainda o ouvem, mais raras ainda as pessoas que dizem gostar da sua música, mas há uma imagem esparsa de agradabilidade que se instala apenas escutando o seu nome.


E é esse o verdadeiro mito. Não é manter uma ideia idiota de um falso óbito. É tornar um homem e a sua obra numa ideia de desafio, de rebeldia, de inovação. É ter mais pessoas a imitá-lo, a recriar toda a sua imagem, a querer cantá-lo, do que pessoas que ainda o escutam. É ser um conceito que todos querem imitar a encarnar. É querer ser, não contemplar.


Este é o meu espaço para ser Elvis. Espero tratá-lo condizentemente com tão alto objectivo.

sexta-feira, julho 11, 2008

Eu

Simplicidade é o que pretendo. Crítica simples. Textos simples. Personalidade simples. Reinvenção de uma certa parte de mim em busca de um contraste entre a escrita e a realidade. Apesar disto existe um propósito maior neste lugar: ser um projecto de afinidades.

Quanto à minha pessoa, sou alguém cuja identidade é um bem maior a ser preservado. Por isso mesmo passo por estas palavras, como um indigente passaria por alguém. Observa-se o homem e ouvem-se as suas loucuras sem sabermos quem ele é ou de onde veio.
Afinal, que importa isso? O que realmente importa é o que se faz e não aquilo que dizemos ser.

Apresento-me à comunidade blogger como sendo anónimo. Não tenho sexo, mas prometo que não serei um assexuado; não tenho lugar, mas falarei dos sítios que conhecer; Não tenho idade, mas até onde me for permitido falarei umas vezes ingenuamente e outras com alguma sapiência. A minha identidade estará presente, mas não patente.

Sem querer parecer snobe, conheçam-me apenas por Pseudónimo.

Quero em último lugar dizer que nada disto seria possível sem o Ricardo Teixeira. Ambos, como em quase tudo o que fazemos, seremos os motores desta escrita indefinida...