terça-feira, março 01, 2016

Nova Casa em Remodelações

Caros Leitores,

Encontramo-nos, neste momento, em remodelações para um novo espaço que substituirá este. Poderão começar a seguir-nos em Paisagem Suplente.

Esperemos ir de encontro a uma nova forma de olhar e estar; regidos pela Poesia e Arte nas suas mais diversas atuações. Desde já nos despedimos deste Parafilias que continuará online devido ao volume e para que permaneça online o passado de muitas outras coisas que se escreveram aqui e se tornaram independentes dos seus criadores.

Desde já nos despedimos deste lugar com a certeza de uma certa nostalgia branda e trazida com carinho.




sábado, fevereiro 20, 2016

Sylvia Plath

I love to gaze into the abyss
while reading Sylvia
and about her suicide.

She never killed her children
but she killed every poetry to come,
this seems to me
spiritual abortion.

I love to gaze into the abyss
I love to gaze like Sylvia did,
Madly in love.

If I only could stop
the same way Sylvia stopped,
just to relieve something
that I won't write.

sábado, fevereiro 13, 2016

O Darma dos Livros

"Antes de se ir embora distribuiu todos os seus livros pelos amigos e a mim, quase sem querer, calhou-me o “Delfim” do José Cardoso Pires. Uma edição raríssima como o seu anterior dono, que alguém já aproveitou pra roubar da minha estante. Também não me posso queixar desse Darma que todos os livros compõem, quantos livros roubados não estão na minha estante. Principalmente quando vou a casa de alguém que deteste e levo uma preciosidade dessas comigo. Risco o nome do anterior dono e ponho o meu por baixo – e fico à espera que se me acalme a briga e torne realmente meu aquilo que levei com raiva e sem perguntar. Às vezes é muito difícil essa leitura porque necessita de um perdão e sei que é imbecilidade achar que isso é coisa imediata; ou que livros assim me enriquecerão. Não deixa de ser vontade de ter um pouco a mão de Deus e fazer uma justiça da maneira que mais me aprouver. Realizando que a justiça divina, igualmente silenciosa como um ladrão, consegue ser mais original e regida de verdadeira eficácia: roubam-me os livros roubados."

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Astronauta

Anda comigo, quero mostrar-te
O lugar onde todas as coisas se transformam,
Dançando, suspensas, numa só metamorfose.
Redesenhemos as constelações, quero construir castelos
Feitos de estrelas,
Para que os possamos contemplar
Um dia,
Deitados na relva.

E quando o mundo adormecer,
Calado,
Como se calam os mortos nos caixões,
Escutaremos a sinfonia que nos cantam
Todas as galáxias do Universo,
Enquanto nos banhamos nos brancos oceanos
Da Via Láctea.



Ana Caeiro

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Noite Punk


Hoje em dia sentamo-nos nas escadas dos edifícios que dão para a rua e já não nos perturbam os deleites intelectuais uma da outra. Tínhamos ficado alguns anos sem nos vermos, cada uma na sua vida. Foi por acaso que a vislumbrei no metro a corri de imediato ao seu nome e de volta, ela no meu, num abraço que parecia de ontem. Tinha-se dedicado à música por completo, assim como eu me tinha dedicado à lavoura intelectual da existência – usando a forma simétrica da harmonia musical, a poesia. Saímos no Rossio, com tempo para um café que durou noite fora. Fomos até junto do Tejo, viradas para o cais das colunas, onde partilhámos uma litrosa que desbocou uma paixão incessante de parte a parte. Incessantes, mas igualmente condenadas a um fim que não queríamos ver perder em nós.  Ela, que se deixara levar pelos encantos de um homem casado; e eu, que relegava no amor de alguém a responsabilidade de ser feliz. Coisas de catraias, mas que no momento faziam suster a respiração perante a infelicidade perene dos primeiros amores. Decidimos naquele momento que devíamos pelo menos brindar as memórias aguadas dos tempos do colégio. Fomos até ao Indiano e comprámos uma garrafa de vinho carrascão –  não importava o sabor do álcool naquela idade.
Era Janeiro e a ameaça da noite trazia consigo o relento húmido do Inverno lisboeta, o que nos fez caminhar durante quarenta minutos à procura do lugar mais resguardado para a nossa pequena celebração; até chegarmos ao Regueirão dos Anjos. Por lá havia uma daquelas tascas lúgubres geridas por idosos que já pouco ligam às leis de higiene, suas e dos seus estabelecimentos de restauração. Entrámos e pedimos ao velho que estava atrás do balcão se nos poderia abrir a garrafa de vinho; e ele fez um sorriso maroto a Helena, dizendo, “só se as meninas consumirem alguma coisa na casa” e pisca-lhe o olho enquanto já abre o vinho. Era Helena quem mais provocava os homens anónimos; e apesar de ser uma beleza renascentista, demasiado geométrica, como se tivesse sido concebida por noções de estética; mesmo assim a maioria era capaz de compreender essa sua expressão de Arte, totalmente criada por Deus – ou pelos seus acasos.
Como haveria de ser assim em diante, sentámo-nos na rua a beber, fazendo de conta a indigência que já persistia no espirito. Chamávamos-lhe “noites Punk”, porque eram sempre às segundas-feiras, nas noites dos adictos, dos loucos, dos punks – e só nos faltava um cão pulguento e co dependente na existência das nossas deambulações sem oriente. Tínhamos tanto para conversar como de boca para beijar e os diálogos discorriam sempre em torno dessa característica. A luminosidade da cidade obscurecia o céu noturno, cheio de estrelas que conseguíamos vislumbrar. Naqueles momentos inventávamos uma festa louca em Berlim para ir e chegamos lá com a memória de todas as festas, de todas as viagens, de alguém deixado num país estrangeiro – e riamo-nos perdidamente com pequenas reviravoltas que nunca aconteceram, pedaços do que imaginávamos, rapidamente saltando para a realidade na medida da embriaguez. A euforia também permitia que nos deslocássemos com facilidade entre memórias e pendências racionais, fazendo movimentos quase bailarinos entre as nossas palavras. Havendo sempre um momento em que abandonávamos juntas essa loucura fantástica e só queríamos, por um momento que seja, estar em alexanderplatz, prontas para seguir uma nova viagem.

domingo, fevereiro 07, 2016

Fenómeno Principezinho


Nunca acabei de ler “O Principezinho”. Tive uma edição em 2001 da qual só recordo a capa ilustrando um menino a voar com balões. Nas primeiras páginas de leitura achei-o de imediato demasiado óbvio. A cena do chapéu e do elefante dentro de uma jibóia não foi o meu primeiro confronto com a linearidade entre a produção do imaginário, propulso na solidão, e a grande espectativa de mostrar, de me aproximar de alguém, um adulto que fosse, e fazê-lo compreender de imediato que havia algo mais por inteligir num pedaço de papel. Lembro-me da professora da escola primária a pedir que desenhássemos chuva sobre uma fotocópia de um homem a segurar um chapéu de chuva. Todas as crianças desenharam gotas de água nos espaço brancos que rodeavam aquela figura tristonha de chapéu aberto. Olhei para ele imaginando chuva caindo rispidamente e com turbulência, por isso limitei-me a fazer pequenos riscos na vertical do seu corpo. Fui a primeira a acabar, orgulhosa da simplicidade do conceito. A professora torceu o nariz e fez uma cara triste a vermelho no meu trabalho; mas no placard, ao lado de todas as chuvas, talvez a minha se aproximasse mais da realidade e por isso fosse a mais feia. Ou então produzira-se o fenómeno principezinho e ninguém teve vontade de compreender a importância da liberdade criativa, de ser naturalmente à parte do pré-estabelecido. Talvez seja esta a razão pela qual ainda hoje não me atrevo a acabar esse livro tão pequeno e à partida, tão simples. Para mim ainda é uma leitura pesada, mais que qualquer outro Autor; mais pesado ainda que as dolorosas perturbações de Raskólnikov.
Dos tempo das leituras juvenis talvez a mais marcante tenha sido “O meu pé de laranja-lima” do José Mauro de Vasconcelos. Lembro-me de uma euforia quase infantil em devorar cada palavra e pela primeira vez, devo ter ficado até de madrugada à espera de um final que me iria provocar a primeira catarse literária sentida. Ali, alumiada pelo candeeiro da mesinha de cabeceira, quieta como qualquer animal pequeno, chorei lágrimas grossas para cima das últimas páginas. Fui também capaz de ir com o Tom Sawyer e Huckleberry Finn para as margens do rio Mississipi e só ali fui capaz de esquecer o infortúnio do pequeno pé de laranja-lima; mas só para logo me deixar emocionar pelo Oliver Twist – tudo miúdos abandonados, até aqueles que eram felizes na sua liberdade deixada.

O meu pai, qual Rei Salomão, revelava-me os clássicos da infância, os olhos brilhavam-lhe qualquer coisa de especial com o Kipling na mão, levando-me, sem saber, para as aventuras mais extraordinárias da vida: as primeiras leituras. Só aos vinte anos chegaria a um pequeno ensaio de Proust contando-me exatamente isto. De como eram fáceis as palavras lidas através da infância, desaparecendo, subitamente toda essa mente maravilhosa perante os livros. O espaço que mediou esse final e aquele em que se deve registar a leitura noutra maneira foi muito grande e confuso. Sem saber exatamente como quantificar quanto tempo foi e que terei lido nesse espaço. A única coisa que me parece ajudar a apaziguar essa altura é precisamente: a releitura a espaços de torrenciais divinos batendo contra a portada da janela, enquanto escrevo.

sábado, fevereiro 06, 2016

Rochelle

O fumo ganhou volume depois de ter tomado o papel, o nosso sujeito encontra-se claramente intranquilo, uma nádega no sofá e outra a acompanhar.
Olhou para o palhaço no tecto, nunca ninguém teve surtos destes nesta casa e este estava claramente farto de
adultos. A sala desdobrou-se para o corredor, corrido para a rua. Há que fazer tempo e os melhores transes não são dignos de festas. Venha a brisa fresca.
Foi portanto comprar pão (as tarefas mais mundanas tornam-se fenómenos dignos de registo quando há um filtro externo ao nosso corpo). Claro que
isto só é perceptível ao próprio, a âncora da experiência. Felizmente os outros tomam-nos por tolos, dão o pão, consideram enganar o troco e
mudam o canal da televisão. A padaria encontrava-se junto a uma falésia com bancos, onde ele se sentou a ver o sol nascer. E aí veio a ideia, por
entre a magnificência do nascer do dia, as vagas de ácido recortando a luz por entre as núvens, cores mais intensas que um exercício de pintura surrealista. Este é o
primeiro dia depois de ter recebido uma rescisão amigável, 1500 euros a pesar no bolso, a trip começou logo a torcer-se de entusiasmo. 30 anos soltos
"Estás a chegar a uma fase perigosa da tua vida". Duas horas depois
estava a comprar um bilhete de avião numa e-shop indiana, rumo ao reino da Tailândia. Avisada a família, comprou uma mala no chinês, sete pares de meias,
t-shirts pretas e uns óculos escuros. Meio dia depois fazia escala em Amsterdão. Não tendo vontade de correr caminhos já percorridos nem chegou a sair de
Schippol. A turbolência agoirava um bom porto de destino, o avião aterrava em Banguecoque. registando o calor e a humidade pendentes no ar quando a cabine
universal, pressurizada e climatizada se abriu e os passageiros foram sugados para a realidade tailandesa. Na verdade tinha escolhido Banguecoque porque um
amigo já lá estava, a fazer uma fortuna com apostas múltiplas em jogos de póquer online, colhendo cêntimos em simultâneo, somando um belo estilo de vida do
qual se gabava pela internet. Dizia-se em Lisboa que estava a viver com uma tranny chamada Rochelle. A passagem pela fronteira foi inconspícua, um homem com uma folha de ácidos repartida entre vários esconderijos, um funcionário
de alfândega a dormitar e outro a fazer sinal de passagem por cima de uma revista.


por, Jonas Valente

Momentos de Hypnagogia


No momento que mediou a entrada na vida de jovem adulto ocorreram toda uma série de transfigurações que muito se assemelham a uma puberdade existencial. O corpo subitamente deixou de crescer, mas por antítese, a vida não. Todo o tempo que passa é um movimento que se escapa e se deixa por viver. Como se entrasse de repente numa cabeça que costumava ser oca, deixando lá dentro o primeiro traço cronológico. O primeiro dentro muitos que daí em diante serão marcos cronológicos que vão compassando o dia em que se seja demasiado e a morte esteja próxima. Por enquanto é só um traço sobre essa linha que está por existir; que ainda assim, neste caso em particular, parece fazer despertar para uma consciência translúcida e subitamente quieta – brincando com uma moeda de um euro, cara ou coroa? Calhando o lado qualquer um das hipóteses, aquela que eu queira, mas que mais nada me diz acerca do futuro das escolhas. Talvez seja por isso que durante a noite me assaltem figuras de anjos e outras entidades alienígenas. Grito o nome do homem que dorme ao meu lado, que desperta abrupto, que me diz que sou demasiado suscetível, envolvendo-me o corpo de volta à tranquilidade. Outras vezes explodem aparelhos domésticos a meio de um quase sono que rodopiava ainda em volta do Álvaro de Campos. Julguei por momentos que morreríamos os dois numa terrível explosão de gás. Só quando sou devolvida à luz do dia é que me ocorre uma espécie de arrepio medular. Se são espíritos vagueando, como uma visão que acompanha naturalmente esta idade, se é uma força maior que o tempo que vive no interior do espirito. Se não estamos, de todo, a sós.  

Parecem-se a avisos quando é uma sombra inclinada e parece murmurar as coisas pensadas no instante em que se adormece. Outras vezes são como duros presságio, preparando a mente para algo de sublime ou trágico. Também já foi a explicação do mundo, quando pela primeira vez, aos vinte e cinco anos surgiu uma cabeça humanoide olhando para o centro do meu rosto, no seio da escuridão dos olhos fechados. Julguei durante muitas semanas que algo de extraordinário estaria prestes a acontecer; comecei a notar nos juntinhos de relva entre as pedras da calçada, uma flor crescendo entre o betão: como todos os homens contemporâneos. Apesar de qualquer efeito borboleta, era um presságio que apenas me concernia e do qual foi impeditivo escapar. Sem querer, fui capaz de notar uma transição que é humana e que riscou duramente a parte que lhe cabia riscar – e que agora é como um traço de giz, fazendo ruído dentro do peito. Eu sei que é um caso particular, mas quem mais não se esquece de ouvir o barulho da sua própria respiração. Quem não terá passado a vida inteira desligado da sua própria vida onírica, sem saber que ali está o corpo produzindo uma resposta autêntica e bussola do que mete medo e é futuro. Quem sabe, toda a hypnagogia, criação mais ou menos alucinatória, é um dever sobre a contemplação do principio e do fim para que seja poesia – um novo recomeço. Uma esperança renovada acerca da, em particular, missão espiritual. Da qual tudo o resto é impossibilidade de desencriptar as mensagens subliminares que algo divino inscreveu na natureza. Ou esta capacidade para observar longamente um ponto no horizonte que é coincidente com todas as restantes partículas que compõem os campos de visão. Não é mero olho estagnado, são todos os sentidos, em especial aquele que é fé, rasgando a realidade que padece em torno de qualquer corpo. Tratando-se de um pedaço singular entre o espaço e o tempo que nunca mais se repetirá e que o espero junto de uma folha branca.

Lembro-me de teres dito que existia uma constelação, muito longínqua, onde existia um corpo celeste com condições de sobrevivência muito parecidas às do nosso planeta. Pouco me interessou naquele momento, pois não existe uma lei acerca da morte por inteligir. Se tudo, no fundo, é composto do mesmo, então também esses seres extraterrestres pouco saberão de tal coisa, temendo, como qualquer homem, o último sopro de vida. Agora que me lembro de ti ganho uma ideia nova para um projeto literário que nunca começarei. Seria uma ficção cientifica baseada na ideia de um grupo de entidades que devido às condições ambientais da sua zona do Universo, seriam capazes de viver por mais de quinhentos anos, passando durante toda a sua vida por igualmente longos períodos de luto. Seriam assim uma espécie melancólica e ligeiramente curvada, a única, no Universo inteiro que não cede ao suicídio porque esse é um gesto demasiado súbito para a sua natureza demasiado inerte e pensadora. Por outro lado, as crianças seriam crianças por um período de cento e cinquenta anos; ocupando-se longamente com a inocência no seu tempo devido, mas já comprometidas aos cinquenta em tomar as rédeas do mundo e fazer dele um lugar melhor para a sua vida adulta. Um ficção cientifica que nunca escreverei porque se parecerá sempre ao mundo que condiciona o humano.



sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Sexta, à noite

Hoje correm as horas sem procurarem
um rosto que se distinga na feia luminosidade
da cidade levada pela mão
bêbeda de sinais de trânsito e
cores diversas, mascarando os homens
com uma semi-obscuridade inventada.

Vou atrás de uma mão familiar,
caso contrário será essa a sombra
ébria de intermitente vazio
que me levará a uma festa em Berlim -
da qual nunca mais regressarei
da qual faço intenções nunca ir.

Faço por não recordar Sexta, à noite;
quando era incessante e tinha que ser
vinho mal-digerido de imaturos divertimentos
deixado ao serviço de limpeza da Câmara Municipal,
o 207 apinhado de mitras até Fetais
e às vezes
beijos sôfregos a gente desconhecida.

A mesma gente escondendo uma expressão
que não aprecia,
mas que a noite fez por cobrir
num rosto que em realidade
não sabe exatamente como se é.

Tento apertar a mão familiar
apertando de volta um balãozinho a hélio
inalando uma voz de timbre anedótico
enquanto conta tragédias sem importância

num corpo que só apetece
dançar a música do Bowie
e não voltar nunca mais.

Num corpo que se decide o resguardo
de todas, tantas memórias
e fica escrevendo-se.

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Mãe Preta


Tenho uma memória de infância que é como uma vaga sensação de conforto que, sem saber, é fonte de uma vida ligeiramente esquecida. Ligeiramente porque todas as memórias situadas na travessia da infância são muitas vezes um gesto automático na personalidade – e se agora dedico algumas palavras à minha pessoa, esquecendo qualquer das personas usadas,  sou uma mescla de carinhos encontrados; de cada vez que encontro um novo, florescendo, sei apenas que é mais uma dessas sensações estreitas e que, desta vez sim, interessam à escrita, por serem outra memória encontrada, mas mais longínqua e perdida. Deste pequeno pormenor que surge ponho-me à procura, desenfreadamente, de um álbum especifico de Madonna. Sei apenas que a música tinha determinado timbre, fazendo-me adormecer coisas que demoraria demasiado tempo a entender. Dou-me conta que é como encontrar uma agulha num palheiro, mesmo com toda a rede funcionando linearmente qualquer que seja a informação procurada. Sem saber era daquelas coisas que acontecem no inicio de uma longa contemplação, Something to Remember de 1995.

Desse tempo relembro a música a dar na penumbra do quarto partilhado com a empregada. Ao que parece ela só conseguia adormecer assim, com o volume no mínimo possível. A Madonna sussurrava a minha ingénua inocência, guardada pelas lágrimas que ninguém naquela casa alguma vez ouviu. Para trás tinha ficado muita gente, a família em Cabo-Verde e outra família, em especial uma menina que conheci numa foto, a Joana que vira nascer. Quatro anos depois já estava em Lisboa com todos os seus pertences, contratada pela minha mãe para ser a sua substituta na tradicional vida doméstica das mulheres - prévias à sua geração. Trazia um rosto de feições ocidentais, nariz pequeno, lábios finos, mas com a bela tez do tom de pele preto. A partir do momento em que começámos a falar apenas lhe fiz perguntas. Estava assustada sem saber, mas na medida das questões o tempo foi passando complexificando todas as suas respostas. Agora tento especificar algum desses diálogos e dou-me conta que não serviram pela sua estética, mas porque são vida e pouco conseguem caber nestas linhas.

A cozinha cheirava sempre a algo que estava a ser cozinhado, mexendo-se entre as panelas e a rádio África que passava funaná. Como se dançasse uma vida sonhada, com a alegria de quem se vê livre da pior pobreza de todas: ignorância. Convivendo no seio doméstico que lhe começou a ser família. De manhã dava-nos o pequeno almoço e levava-nos até à escola primária no bairro prazenteiro de Benfica. Atravessávamos um pequeno túnel, assustador, mas que encurtava o caminho até à escola. Quando chegou o tempo de aprender a voltar sozinha dizia-me sempre, “não faças o caminho do túnel, é muito escondido” e eu ignorava-lhe sempre o conselho. Afinal de contas, não me era ninguém e estava a ser paga para cuidar de mim. Ignorei-lhe todos os conselhos sem lhes saber o preço real e agora, tudo o que parece sobrar é um breve instante de aconchego que nunca partirá dentro de mim.
Ensina-me ela, para toda a gente que não volta, música em voz baixa noite fora. Fazendo por acalmar as decisões que nunca são certas ou erradas; que se tratam de um sentido dizendo-lhe que deverá amar incondicionalmente todas as crianças a quem dirá adeus – sem se saber retratada nas coisas que são demasiado importantes para caírem no esquecimento. Sem saber como são hoje os seus filhos, de mim em particular quando predestinava uma criança com demasiado mau temperamento para a vida. Olhando-me desgostos que fazia por atenuar com a simplicidade do seu quotidiano. Falando-me coisas que terá que repetir ao bebé que embrulhava às costas com um pano étnico. O bebé bem seguro que nunca será entregue a uma mãe preta, mas que verá através dela, como qualquer outro seu filho.