Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

14 de Fevereiro


A Margot sentada, atrás do piano,
Já lá vão as sete vidas, mas pela
Primeira vez a gata escutava Beethoven:
Que bom seria receber um sinal
Ou fazer do Acaso uma resposta Universal.
A Judite há muito tempo que não diz nada,
É pena, tinha planeado um passeio
Ou talvez uma recolha de palavras:
Poderíamos plantar os seus membros desfeitos
Deles nasceriam Homens
Capazes de Amar - Esta linha evidente
Foi traçada por mim, por mais animais
Que alimente: Há sempre um que quer mais -
Só a gata foge do carinho. Entristece-me,
A quem mais poderia revelar esta face amorfa?

Do lado de lá do espelho alguém me segue,
Beijo essa figura, tento beijar-me:
Sorvo com sofreguidão um café e Judite
A Escrever Cartas.
Cartas como estranhos;
No Parque dos Loucos apetecia-me um estranho,
Mas a ideia de um estranho -

Ora Reflexo meu
Ora uma feliz coincidência -

Seria maravilhosa como um destinatário
Anónimo, abrindo esse envelope mistério
Até ao momento em que um ser, na verdade,
É humano apenas: A  verdade inundava-me
Como um físico descobrindo
Uma equação para a Morte. Tenho medo
Do Giz, sei que traçaram um hemisfério
E agora resta-me o pólo mais frio:
Lambes o selo lentamente - sou a tua efémera
Mulher-envelope.

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

Exterminador À Mesa Com Cadáveres Nus

“I´m getting so far out one day I won´t came back at all”
William S. Burroughs

Aparentemente, morreste mesmo, o mundo todo livrou-se de ti, ao contrário
Do que esperavas, não mataste o mundo, não acabaste com ele, as tuas mulheres
Continuarão a não ser tuas, outros irão entrar-lhes dentro, algumas terão filhos,
Outras terão melancolia e tu irás visitá-las, naquelas noites mais solitárias,
Mas ao Sol, nem pensarão no teu nome, tu moras na escuridão e o teu futuro
É o esquecimento. Ainda não nasceram ervas na tua campa e já sacodem o pó
De ti, é que a vida não suporta o peso vazio da morte por muito tempo
E já se está a festejar como se tu nunca tivesses desistido de tudo.
Tantos fins do mundo todos os dias, sentem-se com o ruído das massas
E amanhã estão os escombros limpos, a ocorrência registada para acrescentar à
História, como se fosse só para encher livro. Os problemas do mundo continuam,
Tu não eras o problema, só a consciência dos problemas, as sinapses
Desistiram de universos que se desintegraram em anóxia, enquanto outras
Estrelas se acendem todas as noites ignorando o tamanho insignificante
De dois olhos que se fecham, dois buracos de verme que terminam
Encerrando uma realidade no vazio eterno. Tornaste-te num sistema isolado,
Não aqueces nem arrefeces, apodreces, as cordas continuam a vibrar
E a permitir todas as injustiças contra a nossa moralidade inventada à sombra
De deuses imaginados, o Sol não é suficiente para todos e a fome parece
Ser o esgoto de uma civilização doente, corre debaixo dos hemisférios
Das cidades brilhantes e douradas. Os teus olhos tornaram-se cinzentos,
Podia-se perceber na mesa do café, enquanto falavas de cores e contra gerações,
Todos mortos também, copos falhados e erros irremediáveis, um Mugwump agarrado
Ao corpo de David Carradine e tu enterrado no anonimato de uma aldeia do interior,
Enquanto as abelhas continuam o seu trabalho na urze à entrada do cemitério,
Uma dolorosa indiferença voadora excessivamente doce. Têm morrido cantoras
Cansadas do seu cansaço pelo excesso da vida, sempre um excesso, quase tudo,
Quase nada, o mesmo excesso incompleto que é a vida e a reacção
Histérica dos vivos perante a morte é na verdade o festejar de uma vitória,
Ainda cá estamos a acabar, e uma certa inveja, como será estar morto,
Mas no fundo “quase nada é sempre melhor que nada”, querem acreditar
Os que têm a melancolia de uma vida relativamente fácil e sem fome de estômago vazio,
Mas no fundo sonham com mortes súbitas e coragem no décimo terceiro andar,
Esperam silenciosamente catástrofes naturais sentados no sofá a ver televisão
Só com a roupa interior vestida. Também te devem ter enchido o crânio com papel
De jornal, a última lavagem ao cérebro, mas escolheste tornar as sinapses em
Alimento para a curiosidade de facas, quando só tu sabes a verdadeira razão,
Quando só tu sabias qual a razão que não encontraste para desistires.
A tua cama ainda deve ter o teu cheiro e já as promessas de amor mudaram de nome,
A memória que não é escrita em pedras é muito volátil e desculpam-se
Com nomes de outros mortos como Karsakov, má alimentação, excesso de álcool.
O almoço está servido, mas não te preocupes, não arrefecerá à tua espera,
Não neste mundo de corvos vestidos de papagaios, que sonham com a infância
Perdida e fazem tudo para tornar a dos outros cada vez mais curta.

16.02.2012

Turku

João Bosco da Silva

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012

memórias do eléctrico 28 (II)

aquele segundo, aquele instante em que olho os teus olhos ponderando o futuro,
uma mancha cada vez mais obscura de tudo aquilo que não tenho,
de tudo aquilo que não sou,
de tudo aquilo que não sei,
porque não sei o que é querer o futuro quando pernoitas em mim em forma de dúvida,
levo os meus lábios aos teus lábios na esperança de não sentir o que quero sentir.
e nisto sinto,
um momento de clareza.
podia viver neste momento eternamente quando sei que tu sabes que eu sei que somos todo o ar que preciso.
o que estás a fazer? perguntas-me a meia voz, naquele corredor escuro, que se escureceu de toda a invisibilidade que contém.
não sei bem o que estou a fazer, mas acho que nunca soube e quando sei é geralmente um mau pressagio.
encaro o teu olhar e puxo toda a confiança que nunca tive para te dizer que as coisas não são tão lineares como parecem.
o olhar é tão enganador como o coração, é como ver sem ver e como tal sentir sem sentir.
calei-te a noite na boca e saboreei cada instante de quando o fiz.
foi como morrer finalmente naquele espaço, como dar um pontapé à vida e viver pela primeira vez.
não quero escrever sobre ti, porque nem tu o mereces nem eu mereço sequer mencionar-te.
castigaste-me a alma, espetaste-lhe um pincel e fugiste. ou eu deixei-te fugir.
como é que se perde? de mãos fechadas.
eu perdi-te de mãos fechadas porque tinha a mente aberta.
vamos voltar a enganar o mundo ou então a enganá-las no seu mundo.
lanças-me uma mão à cara e atiras-me por terra,
meto pelas escadas e deixo-te só,
atiro-te o colar à cara e cuspo em tudo aquilo que fomos, por breves segundos apenas,
porque depois vens-me tu pelas costas e entras em mim, infectas-me com todas as possibilidades de um mundo de impossibilidades.
era tão difícil amar-te e ver-te partir,
amar-te e ver-te chegar,
amar-te e ver-te dormir,
amar-te e ver-te no meu corpo,
amar-te e amar-te obsessivamente.
tu, obsessivamente tu com toda a pele que junta me era corpo.
o ciúme, a culpa, as tuas lágrimas nas minhas mãos
tu despida dos teus medos, de quase todos os teus medos, excepto o de me perderes na corrente.
ela não entende o quão maravilhosa é, o quão tudo o que ela é são suspiros e sussurros numa casa abandonada pela noite nos meus braços.
és o meu maior segredo, o meu grande segredo.
não sei muitas coisas sobre a vida,
ou sobre o amor,
ou sobre as pessoas,
ou sobre mim mesma,
mas sei, nesta maneira utópica de saber quando se sente, que me arrependo
que me arrependo de te ter confinado e de ter deixado que me confinasses
ao quarto,
onde me desfiz em lágrimas e partes de ti,
em gritos e em pânico
de tudo aquilo que não fomos, de tudo aquilo que fomos,
lamento, lamento toda a dor, lamento todo o sofrimento, mas se estes não existissem teríamos sabido que foi real?
a single woman.

Ode ao Negro

Os corvos que esperam que o gelo eterno água
E que a morte venha à superfície, sem pudor,
Sem medo de mostrar a sua cor a olhares tristes,
Desprezam a vida que lhe corre em baixo.
As árvores cansadas das ilusões primaveris
Desmaiam até ao esqueleto do mais pudico,
Tombam a saudade do doce por terra e estalam
Quando à noite na cabana se quer a solidão de uma fogueira.
Deixam-se as cordas pendentes, tudo o resto vibra no limiar
Azul do nascer de um dia curto, o momento azul
Leva a melatonina que ajuda a aguentar o cansaço existencial,
Tão pesado nas horas do fim do mundo.
Grasnam, tossem o ar menos frio, as lágrimas congelam,
O vento fustiga a pele pálida, os olhos profundos e gelados
Num corpo que arde e derrete ao toque de mais um pedaço fora,
Deslizam, atritos esquecidos, não se sentem a maioria dos apêndices,
Esquecem-se, sensação de menos gente, escondidos nos corvos,
Negros na alvura excessiva da vida.
Estalam os instrumentos silenciosos dos funerais e das fogueiras do verão,
Os vidros no chão esquecidos e inofensivos, génios perdidos,
A melancolia nas pálpebras a fazer sombra ao sorriso,
Um toque leve nos lábios e uma cama desconhecida no ranger dos passos
Incertos pela neve fora e nem um cão se pronuncia em certas horas.
A melodia dos corações partidos propaga-se na temperatura,
Lentamente, entranha-se, arranha e não deixa o sangue correr livremente,
Sufoca o desejo real e deixa o corpo agarrar-se ao que houver,
Mesmo que os corvos esperem, desinteressados das crias para o vazio,
Dos que choram arrependidos pela humilhação consentida
Aos que os esperam e respeitam, penas negras no ar azul e tão breve.
O olhar perde-se no infinito possível, mesmo que dentro a consciência
De que não se vai tão longe e já se ultrapassou tal distância,
Reminiscências do tempo dos passos lentos e sentidos a cada quilómetro.
Dilatam-se no interior os versos e a carne dói como se estivesse a ser queimada,
Os pés arrefecem, ou sentem-se frios e o coração esqueceu-se de acordar,
Só o sofrimento de um vazio, de um negro que se instalou, que chegou
Sem nunca se acreditar que mais uma vez, impossível regressar,
Sempre, até ao fim das vidas que estão e das que virão,
Um negro que canta nos quartos vazios, nas ruas desertas,
Nas florestas congeladas, nos lagos das ilusões, as sinfonias esquecidas,
As almas abandonadas pelos corpos desejosos de uma dor fria.
Venham os dentes dos sonhos e façam brotar dos pescoços
Incautos algo líquido, quente, real e sincero, que deixe um ponto certo
Na incerteza branca trazida pelo inverno negro e cavernoso,
Solte-se um grito arrepiante de quem ficou sem pinga de sangue
Ao sentir o negro súbito, penetrando como uma dor impossível
Que se estranha e só a carne acredita quando os corvos avançam.

09.12.2010

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

ashes

sê feliz, eu quero que sejas feliz.
fecho os olhos e afundo-me no sofá, acendo um cigarro e começo a escrevinhar no ar.
pediste-me muitas vezes que te escrevesse, como se eu soubesse usar as palavras
acho que as uso tão bem como quem usa pés descalços em dias de chuva.
gostava de te poder escrever para que ao fazê-lo pudesse encontrar-te exactamente onde te perdi,
nas entre linhas do meu corpo.
todas as palavras são inúteis, todas as palavras são inúteis quando o amor não chega.
o amor nunca chega e quando achamos que chega é um engano.
e vamos assim, enganando o tempo e nós mesmos e esse engano pressagia o fim que acabará por morrer no horizonte dos dias, no sol que se põe em nós.
já não consigo encostar mais a cabeça aos vícios,
fingir que com eles não existes, não vives, não respiras.
vamos enganando tudo, mas nunca se engana a vida.
acho que é exactamente por isso que surge o amor,
quando duas pessoas pensam que podem enganar a vida
e ser mais que a quietude da solidão.

Domingo, Fevereiro 12, 2012

chove tanto lá fora,
tanto ou mais que dentro de nós.
tu chegas-te perto e eu afasto-te longe.
e os nossos corpos são estas danças contra o vento,
esta dor que não cessa e que permanece em ti como castelos na areia.
ouve, eu não quero ouvir o que tens para dizer foda-se não consigo viver neste sofrer,
este permanecer efémero e tu o teu corpo, como coisas que vomito quando já não consigo encarar mais o teu rosto, escrito nas palmas das minhas mãos.
abraça-me sem me prenderes no abraço, de todas as coisas que nunca serão
eu já te disse que sou passageira e que não piloto este avião que se despenha,
arde,
morre.
vou contar-te novamente a história de todas as histórias de amor,
mas não me fodas, não fodas isto com as tuas paixões platónicas de merda.
eu gosto de ti, como quem gosta de fósforos a arder.
não é suposto durar mais que isso.

Sábado, Fevereiro 11, 2012

fala baixo,
sussurra apenas,
hoje tenho a alma de ressaca.
todo o meu corpo dói,
toda a minha alma dói,
nem consigo ver a luz por isso não abras as cortinas,
deixa a vida lá fora, por mais umas horas.

memórias do eléctrico 28

talvez se não vivêssemos neste voltar para partir valesse a pena.
amei-te como quem ama as pedras da calçada,
depois tu dizes-me ninguém ama as pedras da calçada e do outro lado eu respondo
então ninguém te amará como eu.
aquela casa foi nossa muitas tardes, o teu corpo com a forma do meu tantos dias
até que o meu corpo deixou de ser o meu corpo e passou a ser o teu corpo,
as tuas mãos,
os teus braços,
as tuas pernas,
o teu eu.
relembro vagamente os teus cabelos no meu peito,
quando subia a rua perto da Sé para te encontrar,
relembro como corri mais rápido que o 28 naquela noite em que chovia a potes
apenas para dizer boa noite e afogar-me na tua boca,
como os navios se afogam no mar e nós naquilo que nos faz mal.

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2012

de um lado as contas feitas
dispostas como as curtas distâncias se dispõem em relação à velocidade
os sentimentos desalinhados
traçando azimutes em posições desniveladas
à procura de um dia mais sibilino
de onde se possa levar lesta a certeza.
mas adivinhar o mundo é apenas mais uma narrativa
e de todas aquelas que se tecem, onde se esgrimem hipóteses
e personagens concretas como homens e nevoeiros,
existem poucas que nos dizem para onde ir.
na verdade é só isso que nos dizem
que não existem lugares, apenas espaço.
no fim sabemos, sem o auxílio da busca
e da descoberta,
que sofremos da ilusão da plenitude
de uma curta distância, que a intervalos se evapora
onde é o tempo, ou o cumprimento fiel da velocidade,
a decidir os verões ao teu lado
como quando escrevo um poema e a linguagem decide por
mim o sentido último que dou ao amor.

Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012

Poema De Foder


“(I´m fucking the grave, I Thought, I´m
bringing the dead back to life, marvelous
so marvelous
like eating cold olives at 3 a.m.
with half the town on fire)
I came.”
Charles Bukowski



Deixa-me entrar, não me obrigues a olhos que não estes de fúria fertilizadora,
A quem tenho que pedir direcções, o Miller diz que adormeceu, estava exausto do
Seu amigo francês, nunca das amigas dos francos, e tenho abusado da confiança
Que o Bukowski não me deu, acho que o vinho do porto tem dois truques
Escondidos nos goles quentes e frutados, e nem dou por mim em vales de carne
Numa vindima de gemidos maduros, fermentados por um adiamento de roupa
E privacidade de olhos fechados. Não, isto não é um poema de amor,
É um copo cheio de suor, esperma e o que me escorre pela barba abaixo
Enquanto me apertas entre os teus joelhos, tocando no fundo de ti aquelas músicas
Lamechas em silêncio, que só se tornam compreensivas quando arrefecer em ti
E te aparecer em reflexos nas janelas dos autocarros, mas saudade não é
Vontade de mais uns orgasmos em troca de coragem, resignação ao desejo
Traumatizado pelos verdes anos lavados com doutrina e hóstias consagradas,
Saudade é uma das doenças dos dedos que escrevem versos sobre perdição.
O pecado é apenas algo como o amor, abstracto, como deus, não existe,
Só quem acredita sente, por isso a minha carne dentro da tua, não tem nada
De pecado, sentes, não acreditas, dizem-me os teus olhos surpreendidos por outro
Dentro de ti, mas existe e se não fosse o controlo, que me disseste que tu também,
O pecado podia ter um nome e não se pode chamar Luxúria a uma criança,
Apesar de ter sido avarento em relação ao teu corpo, na verdade só teu e de quem te
Paga com ilusões, tradição e comodidade, os sofás ardem com hipocrisia.
Olha-me direito, que os teus olhos foram meus, assim como os teus lábios,
Esses inocentes lábios, doces lábios, frescos lábios, à volta do meu caralho
Com uma fome provocadora, a tentar provar que tu capaz de acrescentar ao luar
No meio de um descampado, enquanto o mundo arrefece e as recordações
Da última no mesmo lugar a confundir-se com o teu sabor meu na tua boca.
Todo o atrito, que a tua excitação apagou com a magia que só as mulheres,
Renasce na forma de palavras que me deixam exausto, para no fim
Nem o risco de um futuro defunto, como uma foda ao ritmo imparável
Do vazio de garrafas de vinho tinto caseiro e Lana del Rey a provocar-me
Com a sua carne irresistível que os seus lábios solidificam na imaginação
Do impossível, mas as minhas mãos cheias de ti, enquanto o Marquês me
Segreda ao ouvido indecências que o meu corpo cumpre no teu
E o frio lá fora, na ruralidade purificada pela geada, pede lenha,
Mas a tua fogueira é outra e enquanto o vinho não se cansar,
Queimemos carne, sonhos e desejo, venha depois o desamor a desculpar
O cadáver da curiosidade, a velhice do desejo e a fossilizar as fodas que fomos.

08.02.2012

Turku

João Bosco da Silva